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SENA MADUREIRA

Padre Paolino Baldassari: nove anos sem o “médico da floresta” e símbolo da fé e luta social no Acre

Por Cris Menezes 08/04/2025 07:42 Atualizado em 08/04/2025 07:42
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FOTO: ALTINO MACHADO.

Nesta terça-feira, 8 de abril, completam-se nove anos da morte de uma das figuras mais marcantes da história recente do Acre: o padre Paolino Maria Baldassari. Aos 90 anos, o missionário da Ordem dos Servos de Maria faleceu em 2016, deixando um legado de fé, humildade, serviço ao próximo e amor incondicional à floresta e seus povos.

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Em reconhecimento à sua trajetória, uma lei aprovada pela Câmara Municipal de Sena Madureira tornou o dia 8 de abril feriado no município. A data é reservada para lembrar a memória daquele que, para muitos, foi mais do que um líder religioso — foi um verdadeiro santo.

Nascido na Itália, filho de um pedreiro com uma agricultora, Paolino Baldassari teve uma infância simples. Ainda jovem, trabalhou como ajudante de pedreiro e enfrentou dificuldades escolares, especialmente com a matemática — segundo ele próprio, levou dezenas de “tabefes” por não aprender a tabuada.

A vida mudou após a Segunda Guerra Mundial. Fugindo dos horrores do conflito, Paolino se uniu ao frei Heitor Turrini e, juntos, decidiram vir ao Brasil. Chegaram à Amazônia numa jornada improvável, com passagens conseguidas de forma quase milagrosa. O destino final foi o Acre, onde iniciariam uma missão que transformaria vidas.

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Quase 70 anos dedicados aos humildes

Padre Paolino escolheu Sena Madureira como sua casa e comunidade. Viveu no Acre por mais de meio século, onde dedicou-se profundamente aos povos da floresta — indígenas, seringueiros, ribeirinhos e moradores urbanos em situação de vulnerabilidade.

Ele ficou conhecido como o “médico da floresta”. Embora não fosse médico de formação, aprendeu na prática os saberes populares e indígenas sobre ervas e plantas medicinais. Chegou a publicar o livro Medicina da Floresta – Fonte de Vida, que reúne receitas naturais para o tratamento de mais de 150 doenças.

Durante anos, centenas de pessoas formavam filas para consultar-se com ele. De batina e com sua inseparável maletinha de folhas e unguentos, atendia cerca de 80 pessoas por manhã, sempre com paciência e carinho.

Missionário das águas e da floresta

O padre não se restringia à zona urbana. Realizava as famosas “desobrigas” — longas viagens missionárias pelos rios da região, em que levava a palavra de Deus às comunidades isoladas. No início da missão, essas jornadas duravam até seis meses. Mesmo com a saúde debilitada, já quase aos 90 anos, continuava a navegar pelos igarapés por até dois meses, levando missa, atendimento e consolo às populações ribeirinhas.

Sua atuação também se estendia à educação. Em parceria com a comunidade, ajudou a construir mais de 40 escolas em áreas de difícil acesso. Era defensor da floresta e das causas sociais, apoiando a luta dos seringueiros contra o desmatamento e pelo direito à terra.

Um legado de fé, serviço e humanidade

Mesmo com uma vida de realizações, padre Paolino nunca acumulou bens materiais. Seu único patrimônio era a batina que vestia. Acordava todos os dias às 4h30 para rezar, celebrava missa ao amanhecer, atendia pessoas durante a manhã, visitava famílias à tarde e, à noite, ainda apresentava um programa de rádio com mensagens religiosas e sociais.

Faleceu em 2016, internado na UTI do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco. Seu velório foi realizado na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, e, em seguida, o corpo foi levado para Sena Madureira, onde foi sepultado com grande comoção.

Hoje, Padre Paolino é lembrado como uma referência de homem cristão, de compaixão e entrega absoluta à missão. Sua vida foi um testemunho vivo da fé colocada em ação, do cuidado com os pobres e da defesa incansável da Amazônia.

Seu nome permanece como um farol em Sena Madureira, no Acre e entre todos que cruzaram seu caminho — um verdadeiro santo de casa, cuja ausência física não apagou sua presença espiritual.

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