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SENA MADUREIRA

Sena Madureira desafia Xapuri pelo título da castanha – e gera reação de ambientalistas

Por Queren Ramos 30/04/2025 19:41 Atualizado em 30/04/2025 19:42
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O município de Sena Madureira vem, nos últimos anos, ganhando destaque como “terra da castanha”, título promovido por lideranças locais com o objetivo de valorizar a produção extrativista na região. No entanto, essa nomenclatura tem sido motivo de questionamento por parte de ambientalistas, historiadores e moradores de outros municípios, especialmente de Xapuri, tradicional reduto do extrativismo acreano.

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A controvérsia ganhou força após recentes eventos institucionais e festividades promovidas em Sena Madureira com foco na valorização da castanha-do-Brasil. O município, terceiro mais populoso do Acre, possui de fato produtores e comunidades envolvidas com o manejo e comercialização da castanha. Entretanto, ambientalistas apontam que o destaque concedido a Sena ignora o peso histórico e cultural de outras cidades na cadeia produtiva do fruto amazônico, principalmente Xapuri.

Para entender o debate, é preciso olhar para a história. Sena Madureira foi fundada oficialmente em 1904 e sempre teve uma economia baseada no extrativismo, especialmente na coleta de borracha e castanha. O município possui seringais históricos e comunidades tradicionais que mantêm viva a prática do extrativismo sustentável. Nas últimas décadas, a castanha ganhou ainda mais importância econômica na região, sendo comercializada tanto no mercado interno quanto para exportação.

No entanto, apesar da relevância local, muitos argumentam que o título de “terra da castanha” precisa respeitar o contexto histórico mais amplo. Xapuri, por exemplo, é considerada por estudiosos como o principal símbolo do extrativismo no Acre, não apenas pela produção em si, mas pela luta política e social que se construiu em torno da proteção da floresta e dos povos tradicionais. Foi lá que Chico Mendes organizou os famosos empates e mobilizou o país em defesa da Amazônia, tendo a castanha como um dos pilares do modo de vida sustentável das populações da floresta.

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“O extrativismo em Xapuri é símbolo de resistência e identidade. Reduzir esse título a uma disputa econômica entre municípios é ignorar toda uma história de luta e preservação da floresta”, comentou um pesquisador da UFAC que estuda a sociobiodiversidade acreana.

Outro ponto ressaltado por críticos da designação é que a cadeia da castanha em Xapuri sempre esteve mais estruturada, com cooperativas atuantes, apoio de ONGs e um legado de iniciativas comunitárias que colocaram o município em evidência nacional e internacional. Enquanto em Sena Madureira o setor ainda está em desenvolvimento e carece de maior organização produtiva e apoio técnico, Xapuri já consolidou sua imagem como referência no extrativismo sustentável.

Não se trata de negar a importância de Sena Madureira na produção de castanha. O município possui potencial e comunidades que dependem do fruto para viver. No entanto, especialistas defendem que os títulos simbólicos devem ser atribuídos com base em critérios históricos, culturais e produtivos sólidos, para que não desvalorizem o protagonismo de outros territórios que construíram sua identidade a partir do extrativismo.

Lideranças de Xapuri, por sua vez, têm evitado confrontos diretos, mas reforçam que a memória da castanha no Acre passa obrigatoriamente por sua cidade. “Xapuri não precisa de slogans. Aqui, a castanha é vivida no dia a dia, é parte da nossa cultura, da nossa economia e da nossa luta pela floresta”, declarou um morador que atua há décadas como extrativista.

A discussão abre espaço para uma reflexão mais profunda sobre como os municípios acreanos podem colaborar entre si na valorização do extrativismo, ao invés de disputar títulos. Afinal, a castanha-do-Brasil é um patrimônio da Amazônia e sua valorização deve ser coletiva, respeitando a história de cada povo e território.

Essa disputa simbólica também evidencia um desafio recorrente no Acre: o reconhecimento e a valorização das origens culturais e produtivas dos municípios. Para ambientalistas e estudiosos, a construção de narrativas sobre quem “representa” melhor determinado produto precisa considerar não apenas a produção atual, mas o enraizamento histórico e a participação ativa das comunidades locais. “Quando ignoramos o contexto histórico, corremos o risco de apagar a memória coletiva de povos que construíram sua identidade através da floresta”, alertou uma pesquisadora em patrimônio cultural.

Dessa forma, a história da castanha no Acre não pode ser contada de forma isolada ou oportunista, mas sim com respeito às raízes e à contribuição de cada município para a preservação desse legado amazônico.

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