Início / Versão completa
Geral

Não se deveria relegar Eduardo Tagliaferro ao limbo do bolsonarismo

Por Metrópoles 04/09/2025 09:27
Publicidade

O ex-assessor do TSE e perito criminal Eduardo Tagliaferro disse ao jornalista Paulo Cappelli que, se tivesse denunciado antes as lambanças do tempo em que trabalhava sob o comando de Alexandre de Moraes, ele “estaria morto”. Ou melhor, supostas lambanças, porque seguro morreu de velho.

Publicidade

Atualmente, Eduardo Tagliaferro está na Itália. Refugiou-se lá antes que o ministro decretasse a sua prisão, sob a acusação de que ele violou sigilo funcional.

Faça-se o retrospecto necessário.

Em 2022, Alexandre de Moraes o nomeou assessor-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE. Nessa função, ele diz ter visto muitas coisas erradas, e parte dessas coisas erradas apareceu publicada na Folha de S.Paulo, em agosto do ano passado.

Publicidade

Graças ao jornal, soube-se que, durante e depois das eleições de 2022, o gabinete de Alexandre de Moraes no STF enviou mensagens à Justiça Eleitoral, fora do radar oficial, ordenando a produção de relatórios para embasar decisões do próprio ministro contra bolsonaristas no inquérito das fake news.

A maior parte das mensagens às quais a Folha teve acesso foi trocada entre o juiz Airton Vieira, do gabinete de Alexandre de Moraes, e Eduardo Tagliaferro. Em uma delas, o primeiro pediu ao segundo para usar a “criatividade” contra a revista Oeste.

Não é preciso dizer, mas digo mesmo assim, que o conteúdo revelado  pelo jornal seria suficiente para derrubar todos os envolvidos, estivéssemos em latitude civilizada.

Leia também

Acontece que, bem antes de o material vir à tona, Eduardo Tagliaferro havia sido demitido do TSE, acusado de violência doméstica — e, assim, ele se tornou o principal suspeito do vazamento para o jornal.

Ao perceber que seria alvo de Alexandre de Moraes, Eduardo Tagliaferro escapuliu para a Itália e lá está, pondo a boca no trombone. O ministro pediu a sua extradição.

Há pouco tempo, surgiram mais evidências de lambanças (supostas, por favor) perpetradas no TSE, no âmbito do inquérito sobre os atos antidemocráticos. Os jornalistas Eli Vieira e David Ágape tiveram acesso a outro lote de mensagens, desta vez sobre os participantes do quebra-quebra de 8 de janeiro.

Como o poço brasileiro não tem fundo, soube-se também que havia (sempre supostamente) um gabinete de inteligência clandestino no tribunal, que fornecia “atestados ideológicos” sobre os detidos do  8 de janeiro, usados (supostamente outra vez) por Alexandre de Moraes para decidir sobre quem seria mantido preso ou não.

No dia em que começou o julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais réus do núcleo principal da tal trama golpista, Eduardo Tagliaferro falou à Comissão de Segurança Pública do Senado, em coreografia idealizada por Flávio Bolsonaro.

No seu depoimento, ele apresentou documentos que mostrariam que um relatório teve a data adulterada para justificar a operação da Polícia Federal contra empresários que trocaram mensagens, em grupo privado, mostrando inconformismo com a eleição de Lula.

De acordo com Eduardo Tagliaferro, o relatório sobre as mensagens foi confeccionado depois da publicação de uma reportagem de Guilherme Amado, ex-colunista do Metrópoles, o mesmo que noticiou que Filipe Martins havia viajado para os Estados Unidos, viagem que nunca feita e que motivou a prisão preventiva do ex-assessor especial de Jair Bolsonaro. A data do relatório, no entanto, foi mudada para parecer que o ministro se baseou em apuração técnica, não em matéria jornalística, para mandar que a PF fosse atrás dos empresários.

“Foi pedido para que se confeccionasse um parecer, relatório, com data retroativa, e eu assinando pelo Supremo Tribunal Federal, ao qual eu não era nomeado”, disse Eduardo Tagliaferro à comissão do Senado. O pedido seria do próprio Alexandre de Moraes, segundo afirma ele.

O ex-assessor do TSE não mediu palavras: “Trata-se de manipulação e criação de uma investigação que nunca existiu e colocada a data de busca e apreensão justamente para justificar que essa busca e apreensão não se deu somente com base numa matéria jornalística e sim, fraudulentamente, com base numa investigação que nunca existiu”.

Eduardo Tagliaferro também afirmou à comissão do Senado que Alexandre de Moraes combinava com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, quais seriam as denúncias que seriam feitas pela PGR aos Tribunais Regionais Eleitorais.

Por meio da sua assessoria no STF, o ministro negou qualquer irregularidade à imprensa que o procurou.

Vivemos tempos complicados, e o simples fato de tocar em determinados assuntos pode ser usado contra você, mas não se deveria relegar Eduardo Tagliaferro ao limbo do bolsonarismo. As acusações dele são graves demais e estão acompanhadas de documentos que precisariam ser periciados por profissionais independentes.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.