Início / Versão completa
Geral

Síndrome de Moyamoya muda o destino de jovem capixaba de 26 anos

Por Metrópoles 08/09/2025 00:26
Publicidade

Em 2019, a vida de Ana Binda, então universitária de Arquitetura e Urbanismo, mudou radicalmente. Diagnosticada com a síndrome de Moyamoya, uma condição rara que afeta os vasos sanguíneos do cérebro, a jovem que hoje tem 26 anos passou a morar em uma clínica em Vitória (ES) após complicações que pioraram seu quadro.

Publicidade

A trajetória de Ana começou a chamar atenção ainda na infância. Com oito meses, foi diagnosticada com hidrocefalia; com 1 ano e seis meses teve estrabismo horizontal e vertical que precisou de cirurgia; e aos 17 anos, enquanto andava de bicicleta, perdeu os sentidos e desmaiou na rua — sinal de que algo mais grave estava por vir.

Leia também

Após exames de imagem, os médicos identificaram que a artéria carótida (vaso sanguíneo que fornece sangue ao cérebro) estava completamente obstruída e algo parecido com uma “nuvem de fumaça” foi identificado dentro do cérebro.

Os especialistas recomendaram então, cirurgia de revascularização cerebral. O procedimento foi bem-sucedido, mas as complicações no pós-operatório — trombose, convulsões e hemorragia — mudaram para sempre a rotina da família.

A força de uma mãe

Professora aposentada, Rovânia Binda, 57 anos, mãe e cuidadora integral da Ana, relata o desgaste físico e emocional da jornada. “É muito difícil ver o sofrimento da minha filha e da família. É como ver alguém morrendo aos poucos sem ter controle da situação”, desabafa.

Desde então, Ana sobrevive entre tratamentos complexos, quase 30 comprimidos diários e acompanhamento multiprofissional. Ela não anda, perdeu a fala e grande parte da visão, mas segue se comunicando por gestos e quadros para a escrita. Ana também faz uso de canabidiol, que reduz a frequência e intensidade das convulsões.

O que é a síndrome de Moyamoya?

A doença de Moyamoya (MMD) é uma condição rara que afeta os vasos sanguíneos do cérebro e foi identificada pela primeira vez no Japão, em 1957. O problema acontece porque algumas artérias importantes, que levam sangue para o cérebro, começam a se estreitar de forma progressiva até, em alguns casos, se fecharem por completo.

Quando isso ocorre, o corpo tenta se adaptar criando novos vasinhos para manter a circulação. No entanto, eles são muito finos, frágeis e desorganizados. Ao serem vistos em exames específicos, como a angiografia cerebral, eles formam uma imagem que se parece com uma “nuvem de fumaça”.

É justamente dessa aparência que vem o nome Moyamoya, que em japonês significa “algo nebuloso ou esfumaçado”. A doença é rara, mais prevalente em países do leste asiático, com uma incidência anual entre 0,5 – 1,5 a cada 100 mil indivíduos, mas é mais baixa em outras regiões, como a América do Norte (0,1 por 100 mil). Os pacientes costumam começar a sentir os sintomas em duas fases da vida: entre 5 e 10 anos e entre 30 e 40 anos.

Principais sintomas da síndrome de Moyamoya

Faz-se ainda a distinção entre MMD primária e secundária: a primária ou idiopática é definida como estenose bilateral da artéria carótica interna intracraniana e seus principais ramos, que não é de origem aterosclerótica nem inflamatória. Para a medicina, ainda permanece basicamente desconhecida.

A MMD secundária, que é o caso de Ana, também é conhecida como “quase-doença de Moyamoya”. Ela compartilha achados angiográficos com outras doenças autoimunes (doença de Graves, lúpus eritematoso sistêmico, arterosclerose, síndrome de Down, síndrome de Turner e hematológicas como doença falciforme, por exemplo). A síndrome de Moyamoya não tem cura, e a cirurgia de revascularização é a principal estratégia.

5 imagensFechar modal.1 de 5

Ana Binda ao lado da mãe, Rovânia, pouco depois do diagnóstico da síndrome de Moyamoya

Reprodução/ Arquivo Pessoal2 de 5

Ana Binda ao lado do pai, Edwilson, em uma das clínicas que passou, desde o diagnóstico da síndrome de Moyamoya, em 2019

Reprodução/ Arquivo Pessoal3 de 5

Comunicando-se por gestos e quadros de escrita, Ana mantém presença ativa nas redes sociais e gosta de receber visitas dos amigos e familiares

Reprodução/ Arquivo Pessoal4 de 5

Mesmo com limitações motoras e de fala, Ana encontra na maquiagem, nos laços de cabelo e nas joias uma forma de expressar sua identidade

Reprodução/ Arquivo Pessoal5 de 5

Ana Binda, 26 anos, enfrenta a rara síndrome de Moyamoya em uma clínica de Vitória (ES)

Reprodução/ Arquivo Pessoal

Um caso médico raro

Segundo o médico Feres Chaddad, chefe da neurocirurgia vascular da Unifesp, o caso de Ana chamou atenção por fugir do padrão. “Ela apresentou como manifestação inicial movimentos involuntários, sem sinais de AVC. Esse tipo de quadro é extremamente raro em adultos com Moyamoya”, explica.

O especialista destaca que esses movimentos podem ser consequência da redução do fluxo sanguíneo em áreas profundas do cérebro, como os gânglios da base e o tálamo, fundamentais para o controle motor. Esse detalhe torna a história de Ana ainda mais única dentro da síndrome que já é rara.

Resistência em meio às perdas

Mesmo diante de tantas limitações, Ana mantém traços da jovem sonhadora que sempre foi. É apaixonada por futebol — deixou de ser vascaína e passou a torcer pelo Flamengo, tema de sua última festa de aniversário — e adora assistir a jornais na TV. “O psicólogo disse que ela não se enxerga, de jeito nenhum, como doente ou limitada. Ela tem vontade de viver”, relata a mãe.

Para Rovânia, a luta é diária, mas também marcada por afeto. “Busco ser forte e aprender, porque no Espírito Santo não havia informações sobre essa doença. Precisei viajar para São Paulo e Brasília para entender o que a Ana tinha. Hoje, sei que cada pequeno gesto dela é uma vitória”, diz.

A história de Ana é, ao mesmo tempo, um relato de dor e testemunho de resiliência. Ela é uma jovem que, apesar da síndrome devastadora, continua sendo lembrada por sua inteligência, alegria e pela forma como segue amando a vida.

Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e fique por dentro de tudo sobre o assunto!

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.