Início / Versão completa
Geral

Correios: um colapso anunciado (por Hubert Alquéres)

Por Metrópoles 22/10/2025 08:27
Publicidade

Houve um tempo em que os Correios eram sinônimo de integração nacional, quando a estatal desempenhava papel estratégico ao garantir a universalidade do serviço postal. Mas isso pertence a uma era que já pode ser considerada como a pré-história das comunicações a pré-história das comunicações, quando telegramas, cartas e remessas eram a principal forma de contato entre as pessoas. Hoje, a estatal vive uma crise agônica, acumulando déficits ano após ano.

Publicidade

O plano anunciado pelo novo presidente dos Correios — além de recorrer a um empréstimo bilionário de R$ 20 bilhões ao BNDES — pouco se compromete com metas claras de eficiência, digitalização ou sustentabilidade operacional. O discurso institucional fala em “inovação” e “serviços digitais”, mas sem qualquer cronograma, prioridade objetiva ou detalhamento técnico. Na prática, é um plano genérico, mais próximo de um discurso de intenções do que de um projeto de reestruturação à altura da crise.

Essa crise se traduz em números e em um rosário de decisões equivocadas, algumas delas adotadas por governos petistas por motivos ideológicos. Entre elas, destaca-se a decisão de Lula, no início de seu terceiro mandato, de retirar os Correios do rol das estatais a serem privatizadas. Parte do déficit — que, só no primeiro semestre deste ano, chegou a 4,3 bilhões de reais, um salto de 70% em relação ao prejuízo do ano anterior — decorre do fato da estatal ter sido obrigada a cobrir o rombo de cerca de 7 bilhões de reais do Postalis, fundo de pensão de seus funcionários.

O Postalis entrou em situação falimentar porque, nos desastrados anos do governo Dilma, o fundo de pensão dos Correios realizou investimentos danosos, apontados pelo TCU, como a compra de títulos da Venezuela e da Argentina, para ajudar os governos “amigos” de Cristina Kirchner e Hugo Chávez.

Publicidade

Também por motivos ideológicos, o plano de recuperação descartou qualquer possibilidade de privatização. Outra decisão desastrosa foi a contratação de cerca de quatro mil novos funcionários no atual governo Lula, quando a empresa já operava no vermelho.

A verdade nua e crua é que os Correios não acompanharam as inovações tecnológicas capazes de fazê-lo competir em um tempo em que o e-commerce ganhou escala. O advento do comércio eletrônico e das redes sociais revolucionou os serviços de logística e a forma de comunicação. Mesmo nos rincões mais distantes do país, as pessoas se comunicam principalmente por redes sociais, e-mails, WhatsApp e outras ferramentas digitais, nunca por cartas.

Com cerca de 80 mil funcionários, os Correios tornaram-se um grande paquiderme nas mãos de um Estado com parco poder de investimento. Custam aproximadamente 20 bilhões de reais por ano, obrigando o Tesouro a fazer sucessivos aportes na estatal.

Durante a disputa presidencial de 2022, Lula afirmou repetidas vezes que não privatizaria estatais estratégicas. A promessa foi uma forma de se contrapor ao discurso de Bolsonaro e Paulo Guedes, que defendiam ampliar o programa de privatizações, incluindo os Correios. Também atendeu à pressão de corporações com laços históricos com o PT, tradicionalmente apoiado pelos funcionários da estatal. Retirar a empresa do Programa Nacional de Desestatização foi, portanto, um gesto de reconhecimento a esse segmento.

Atendia-se, assim, à narrativa construída pelo PT desde o seu nascedouro: a defesa das estatais como instrumentos de soberania e desenvolvimento nacional. Para o partido, privatizar empresas públicas — especialmente as de presença capilar— seria sinônimo de abrir mão de patrimônio coletivo em favor de interesses privados. Assim como a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa, os Correios integram o rol de “símbolos” que o partido considera intocáveis.

A consequência disso foi a transformação da estatal em um grande elefante branco, com um modelo de gestão pautado no loteamento político e na repartição de cargos entre aliados. Esse modelo colocou a empresa no epicentro de escândalos, como o “mensalão”, que deu origem à CPI dos Correios.

A crise se agrava porque o papel de cobertura nacional — que no passado conferia relevância estratégica à empresa — deixou de ser um ativo e passou a ser um passivo oneroso. O avanço do comércio eletrônico e o surgimento de gigantes do setor, como Mercado Livre, Amazon e grandes operadoras logísticas nacionais, mudaram radicalmente as regras do jogo. As empresas privadas passaram a dominar o mercado de entregas rápidas, de alto valor agregado e rentabilidade.

Essas empresas investiram em tecnologia, rastreamento em tempo real, sistemas de logística integrados e centros de distribuição automatizados. E os Correios permaneceram presos a estruturas burocráticas e a uma gestão frequentemente comprometida com interesses políticos de curto prazo, em vez de estratégias de longo alcance.

A experiência internacional mostra que a separação entre a obrigação de universalização (custeada pelo Estado) e as operações comerciais mais competitivas permitiu a modernização das empresas postais sem sacrificar o interesse público. Modelos de concessão, abertura parcial de capital ou parcerias tecnológicas poderiam ser explorados.

O Brasil tem exemplos numerosos de privatizações em setores estratégicos que se mostraram benéficas para a sociedade. É claro que privatizar não é panaceia, e qualquer modelo deve assegurar o compromisso com a universalização dos serviços.

É inevitável comparar a situação semiterminal dos Correios com o que ocorreu no setor de telecomunicações. Quando as teles foram privatizadas, houve enorme resistência, com o argumento de que a universalização do acesso à telefonia estaria comprometida. Se essas vozes tivessem imposto seu viés ideológico, ainda estaríamos estagnados nos tempos do “orelhão” — assim como os Correios continuam presos à época em que a carta manuscrita era o principal meio de correspondência.

____________________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.