A novela “Três Graças” estreou cercada de expectativa, e aos poucos vem mostrando que não está interessada apenas em repetir fórmulas. Um exemplo claro disso é a personagem Viviane, vivida com brilho por Gabriela Loran. A atriz, que interpreta a farmacêutica da cidade, está conquistando o público com uma atuação sólida, natural e, acima de tudo, livre dos estereótipos que historicamente marcaram personagens trans na teledramaturgia brasileira.
O público descobriu que Viviane é uma mulher trans de forma orgânica, quase casual, no capítulo do último sábado (25). Em uma conversa com Gerluce (Sophie Charlotte) sobre a possibilidade de medicamentos adulterados estarem sendo distribuídos para a população carente, Viviane desabafa, preocupada com as consequências jurídicas e sociais da denúncia: “Já pensou a manchete? ‘Transexual dá remédios falsos a pessoas carentes’!”.
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A frase impacta não só pelo conteúdo, mas pela forma como expõe o medo de uma mulher que, além de profissional da saúde, carrega no corpo uma identidade ainda cercada de preconceito — especialmente em situações de crise.
Essa revelação sem alarde foi um acerto raro. O destaque não está no fato de Viviane ser uma mulher trans, e sim em quem ela é: uma profissional competente, respeitada, bem-sucedida e inserida na trama sem que sua identidade de gênero seja a única lente pela qual o público deve enxergá-la.
O enredo da Viviane não se baseia apenas no fato dela ser trans — o que não seria um problema também, mas está lindo demais ver Gabriela brilhar e mostrar seu talento sem ser colocada em um lugar marginalizado. Aguinaldo Silva acertou demais nessa condução.
Esses elogios não vêm à toa. Gabriela Loran entrega uma Viviane carismática, ética, firme, sem abrir mão da leveza. A personagem contrasta com décadas de representações rasas ou estigmatizadas de pessoas trans nas novelas. Aqui, Viviane não precisa “explicar” sua existência. Ela simplesmente vive, trabalha, se posiciona e impacta.
É importante notar que essa representação, apesar de natural, é profundamente política. Não por ser panfletária, mas por ser real. Ao mostrar Viviane como parte essencial da engrenagem da cidade fictícia de “Três Graças”, a novela coloca no centro da narrativa uma mulher trans que não está em busca de aceitação — ela já tem seu lugar.
Gabriela Loran brilha. E o mais bonito é ver esse brilho reconhecido, não por uma militância que precisa justificar sua presença, mas por um público que, capítulo após capítulo, se encanta com o que ela entrega.
“Três Graças” ainda tem muito a contar, mas Viviane já entrou para a lista dos acertos da novela. E Gabriela, com talento e presença, prova que representatividade de verdade não precisa gritar — basta existir com verdade.