Dez anos após o desastre de Mariana, vítimas ainda esperam justiça e reparação

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Nesta quarta-feira (5), o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), completa 10 anos. A tragédia, causada pela mineradora Samarco, despejou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, deixou 19 mortos, mais de 600 desabrigados e destruiu comunidades inteiras, como Bento Rodrigues. Uma década depois, sobreviventes ainda lutam por indenizações, moradias e pela responsabilização dos culpados.

Entre eles está Mônica Santos, ex-moradora de Bento Rodrigues. Ela saiu de casa cedo naquele 5 de novembro de 2015 para trabalhar em um consultório odontológico e só reencontrou o local 24 horas depois — completamente coberto de lama. “Foi quando percebi que não tinha mais nada. Perdi amigos, vizinhos e parte da minha história”, relembra. Hoje, aos 40 anos, Mônica vive no Novo Bento Rodrigues, reassentamento construído pela Samarco a cerca de 13 quilômetros da antiga comunidade. Mesmo assim, ela afirma que as obras ainda estão inacabadas e muitas famílias continuam sem casa.

Mariana (MG) – Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Antonio Cruz/Agência Brasil) – Antonio Cruz/ Agência Brasil

“Enquanto eu tiver força, vou lutar por justiça. Ainda há pessoas que nem projeto de casa têm, e as que receberam moradia não têm o imóvel registrado em seu nome”, desabafa a líder comunitária, que acredita que a falta de punição aos responsáveis contribuiu para que o desastre de Brumadinho, ocorrido em 2019, também acontecesse.

Para Márcio Zonta, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, o desastre é resultado de um modelo de mineração “antidemocrático”, que ignora as populações afetadas. Ele alerta que, das 916 barragens de mineração existentes no país, 74 têm alto risco de rompimento e 91 estão em situação de alerta. Segundo o ativista, tragédias como a de Mariana e Brumadinho evidenciam o colapso do sistema de mineração da Vale em Minas Gerais.

Barragem da mineradora Samarco se rompeu no distrito de Bento Rodrigues, zona rural a 23 quilômetros de Mariana, em Minas Gerais – Foto Corpo de Bombeiros/MG – Divulgação

O promotor Guilherme de Sá Meneguin, do Ministério Público de Minas Gerais, destaca que o rompimento da barragem atingiu 3 milhões de pessoas em Minas Gerais e no Espírito Santo. “Foi mais do que um crime ambiental; foi uma grave violação dos direitos humanos que continua a se perpetuar”, afirmou.

Já o superintendente da Agência Nacional de Mineração (ANM), Júlio César Rodrigues, reconhece avanços na legislação. “Hoje temos uma política de segurança de barragens mais robusta, mas ainda há fragilidades na regulamentação de pilhas de rejeitos”, disse.

Obras de recuperação no Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG) – Foto Divulgação/Fundação Renova

Em nota, a Samarco informou que já destinou R$ 68,4 bilhões em ações de reparação e compensação desde 2015, sendo R$ 32,1 bilhões pagos em 735 mil acordos individuais. A empresa afirma que os recursos têm contribuído para “estimular o comércio, fortalecer cadeias produtivas e gerar empregos” na região da bacia do Rio Doce.

Enquanto isso, pessoas como Francisco de Paula Felipe, agricultor reassentado recentemente, tentam reconstruir a vida. “Tem dois meses que me mudei para a nova casa. Recebi parte da indenização, mas o restante ainda está na Justiça. Não foi fácil viver esses dez anos. Agora quero saúde para ver minhas filhas crescerem e seguirem o próprio caminho”, diz.

Mesmo após uma década, o lamaçal de Mariana segue como símbolo da impunidade e da negligência ambiental no Brasil — e as vítimas continuam cobrando o que ainda não veio: justiça e reparação completa.

Informações via Agência Brasil.

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