Opinião: Em “Três Graças”, a protagonista finalmente é mais interessante que os vilões

Opinião: Em “Três Graças”, a protagonista finalmente é mais interessante que os vilões

Em “Três Graças”, Sophie Charlotte entregou algo raro: uma protagonista que venceu a lógica da vilania dominante. Em um cenário onde os vilões geralmente são mais interessantes, bem escritos e idolatrados, Gerluce surgiu como exceção — e não porque seguiu fórmulas heroicas, mas justamente por romper com elas.

A personagem funciona porque é real. Não é a mocinha idealizada, pura e sacrificada, tampouco a justiceira sem nuances. Gerluce fala como uma mulher de verdade, vive como uma mulher de verdade, erra, acerta, explode, recua e por isso conecta. Existe uma verdade nela que falta a muitas protagonistas recentes. Quando ela está em cena, não parece que estamos vendo um personagem. Parece que estamos acompanhando alguém que conhecemos.

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Esse efeito não é apenas mérito da atuação segura e inteligente de Sophie Charlotte. É também resultado de um texto que foge da caricatura. As falas de Gerluce não estão polidas para parecerem “nobres”, mas sim afiadas na medida certa para parecerem naturais. Esse cuidado com a linguagem é decisivo. Em vez de frases de impacto pensadas para as redes sociais, Gerluce entrega falas que parecem saídas de uma conversa na fila do mercado ou de uma DR real. E isso tem um poder imenso.

O destaque da personagem também escancara um problema: os vilões da novela ficaram devendo. Por mais que Grazi Massafera esteja em estado de graça na pele de Arminda, a personagem ainda não mostrou a que veio. Em outras novelas, o carisma dos antagonistas frequentemente desequilibra a trama e rouba a torcida. Mas em “Três Graças”, os vilões não têm arcos fortes, nem conflitos internos marcantes. São funcionais, mas não memoráveis. Gerluce se sobressai também porque está cercada de figuras mais planas; o que ajuda a enfatizar sua profundidade.

O resultado é um cenário raro: o público não só torce para a mocinha, como discute as ações dela com intensidade. Gerluce gera empatia, mas também provoca debate. É personagem que ativa a conversa, não só o afeto.

No fundo, seu sucesso marca um ponto de virada importante: a mocinha ainda pode ser protagonista, desde que pare de tentar ser perfeita. O público não quer uma santa. Quer uma mulher que pareça viva.

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