Um vídeo raro chamou a atenção de pesquisadores ao registrar uma cecília protegendo um ninho de ovos transparentes, nos quais já era possível perceber os embriões se mexendo. Esses anfíbios, conhecidos por seus hábitos fossoriais, passam a maior parte da vida escondidos no solo ou entre folhas úmidas, tornando flagrantes do comportamento reprodutivo extremamente difíceis de observar.
Segundo o herpetólogo Willianilson Pessoa, na natureza as cecílias se escondem sob folhas secas, troncos ou em galerias úmidas e ficam enroladas sobre os ovos para proteger, manter a temperatura estável e evitar predadores. A posição também permite que a mãe ajuste o microambiente do ninho conforme mudanças de luz ou temperatura: se estiver muito quente, ela se afasta; se estiver frio, retorna para aquecer os ovos.
Além da proteção física, algumas espécies secretam substâncias nutritivas semelhantes a um “leite”, consumido pelos filhotes após a eclosão. A transparência dos ovos, destacada no vídeo, cumpre funções ecológicas importantes: permite trocas gasosas, mantém a umidade necessária e favorece a comunicação química entre mãe e embriões. Os ovos contêm albumina, lipídios, vitaminas, minerais e água, essenciais para o desenvolvimento dos filhotes.
O movimento dos embriões observado no vídeo pode indicar desenvolvimento ativo, mas também pode ser resposta à luz ou ao manuseio durante a gravação. O vitelo branco dentro de cada ovo serve como reserva nutritiva e é absorvido à medida que o filhote cresce. Quando nascem, alguns filhotes já estão completamente formados, enquanto outros apresentam desenvolvimento gradual, refletindo a diversidade do grupo.
O cuidado parental nas cecílias se assemelha a práticas observadas em outros anfíbios, como sapos e pererecas, que variam entre abandono dos ovos, transporte de girinos ou cuidado direto na pele da mãe. Entretanto, registros visuais claros como este continuam sendo extremamente raros, devido ao estilo de vida discreto dessas espécies.
As cecílias, também chamadas de cobra-cegas, podem ser ovíparas ou vivíparas. Seus ovos e filhotes enfrentam diversos riscos naturais, como predadores, mudanças climáticas e degradação ambiental. A presença humana, desmatamento, lixo, fogueiras e animais domésticos também aumentam as ameaças. Por isso, registros como o do vídeo fornecem informações valiosas para pesquisas, sobretudo quando acompanhados de dados sobre data, local e possível identificação da espécie.