Basta abrir o WhatsApp, o Facebook ou o Instagram para encontrar um fenômeno estranho:
todo mundo virou especialista.
Tem “advogado” que nunca leu um código de leis.
“Juiz” que nunca entrou numa faculdade de Direito.
“Economista” que não sabe nem como funciona o orçamento da prefeitura.
“Analista político” que nunca assistiu a uma sessão da Câmara.
“Doutor” receitando remédio caseiro sem nunca ter visto um CRM.
Mas opinam.
E opinam alto.
Com convicção.
Como se tivessem diploma na parede.
É a era do especialista de internet.
Hoje, qualquer assunto vira debate de bar virtual.
Sai uma decisão do Tribunal de Contas?
Aparecem dez “juristas” explicando errado.
Surge um projeto de lei?
Cinquenta “entendidos” jurando que é ilegal, mesmo sem ter lido uma linha.
A prefeitura divulga números do orçamento?
Vira festival de “economistas” fazendo conta no chute.
E o mais impressionante:
ninguém diz “não sei”.
Todo mundo tem opinião.
Mesmo sem conhecimento.
Mesmo sem estudo.
Mesmo sem responsabilidade.
O “eu acho” virou argumento técnico.
Ter opinião é direito.
Mas fingir conhecimento é outra coisa.
- Existe uma diferença enorme entre:
comentar - e afirmar como se fosse especialista
Só que nas redes essa linha sumiu.
Hoje, um vídeo de 30 segundos vale mais que anos de estudo.
Um áudio mal explicado vale mais que um documento oficial.
Um influencer vale mais que um profissional formado.
E aí mora o perigo.
Porque quando gente despreparada fala com autoridade, a mentira ganha cara de verdade.
Pode parecer só conversa de internet.
Mas não é.
Esse “achismo profissional” já causou:
-
gente deixando tratamento médico por dica de rede social
-
pessoas caindo em golpes jurídicos
-
brigas políticas baseadas em boatos
-
reputações destruídas por acusações falsas
-
eleitores votando com base em mentiras
E nas cidades pequenas isso é ainda pior.
Porque o boato corre rápido.
O print vira sentença.
O áudio vira “prova”.
Quando você vê, a mentira já virou verdade na cabeça de metade da cidade.
Existe motivo para um médico estudar anos.
Para um advogado passar na OAB.
Para um jornalista apurar informação.
Para um contador entender números públicos.
Não é frescura.
É responsabilidade.
Conhecimento exige tempo.
Erro custa caro.
Mas nas redes sociais parece que isso perdeu valor.
Hoje é mais fácil ligar a câmera, falar qualquer coisa e ganhar curtida.
O problema é que curtida não substitui competência.
Talvez esteja faltando uma palavra simples no vocabulário das redes:
“Eu não sei.”
Ninguém é obrigado a entender tudo.
Mas todo mundo deveria ter humildade para reconhecer limites.
Porque quando qualquer pessoa se acha especialista em tudo, o resultado é um só:
muita opinião,
pouca informação,
e desinformação espalhada como verdade.
No fim das contas, a pergunta é simples:
– você quer ouvir quem estudou anos…
ou quem gravou um áudio de 40 segundos?
A diferença entre os dois pode mudar uma cidade inteira.