Três anos após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o Brasil relembra uma sequência de acontecimentos que culminaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília. As cenas correram o mundo e ficaram marcadas como um dos episódios mais graves contra a democracia brasileira desde o fim da ditadura militar.
Naquele domingo, milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, derrotado nas eleições de 2022, marcharam pela Esplanada dos Ministérios, romperam barreiras de segurança e invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo era claro: pressionar por um golpe de Estado para retirar do poder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia tomado posse apenas uma semana antes.
A trama golpista
Os ataques do 8 de janeiro foram o ponto final de uma articulação mais ampla, conhecida como trama golpista, formada por uma série de atos coordenados e isolados que buscavam romper a ordem democrática e manter o grupo bolsonarista no poder.
Segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), que resultou na condenação de Bolsonaro e aliados no STF, o plano começou a ser desenhado ainda em 2021, após Lula recuperar seus direitos políticos. A estratégia incluía ataques ao STF, desobediência a decisões judiciais e a disseminação de desconfiança sobre o sistema eleitoral, preparando o terreno para contestar uma eventual derrota nas urnas.
Com a confirmação da vitória de Lula no segundo turno, em 30 de outubro de 2022, os atos golpistas passaram a se intensificar em todo o país.
Bloqueios de rodovias
Na mesma noite da divulgação do resultado eleitoral, grupos de caminhoneiros e apoiadores de Bolsonaro iniciaram bloqueios em rodovias federais em vários estados. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), mais de mil interdições, totais ou parciais, foram registradas.
Os bloqueios atingiram o pico nos primeiros dias de novembro e chegaram a provocar problemas de abastecimento e cancelamentos de voos. Bolsonaro só se pronunciou dois dias depois da eleição, pedindo o fim das interdições, mas sem reconhecer publicamente a vitória do adversário. Com o passar dos dias, os bloqueios perderam força e foram encerrados ainda na primeira semana de novembro.
Acampamentos em frente aos quartéis
Com o enfraquecimento dos bloqueios nas estradas, o movimento golpista ganhou nova forma: acampamentos em frente a quartéis das Forças Armadas. As estruturas foram montadas em cidades como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e em diversos municípios do interior.
Ao todo, foram mais de 100 acampamentos, sendo o principal deles em frente ao Quartel-General do Exército, na capital federal. Dali saíram muitos dos manifestantes que participaram da invasão da Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro.
Diferente do que ocorreu com os bloqueios nas rodovias, esses acampamentos tiveram, segundo a denúncia da PGR, aval direto de Jair Bolsonaro. A permanência dos manifestantes teria sido autorizada por ordem do então presidente, com respaldo de uma nota assinada pelos comandantes das três Forças Armadas.
Esses locais se tornaram verdadeiros centros de articulação golpista, com estrutura de alimentação, alojamento e apoio logístico para milhares de pessoas. Posteriormente, a organização e o financiamento dos acampamentos foram alvo de investigações e condenações no STF.
Violência política e atos terroristas
A radicalização aumentou ao longo de novembro e dezembro de 2022, impulsionada também por ações judiciais do PL, partido de Bolsonaro, que tentou questionar o resultado das eleições no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No dia 12 de dezembro, data da diplomação de Lula, Brasília viveu uma das noites mais violentas de sua história recente. Manifestantes tentaram invadir a sede da Polícia Federal, incendiaram carros e ônibus e fecharam importantes vias da capital, como o Eixo Monumental e o Setor Hoteleiro Norte.
Poucos dias depois, em 24 de dezembro, a situação quase terminou em tragédia. Um caminhão-tanque de combustível, estacionado próximo ao Aeroporto Internacional de Brasília, foi encontrado com um artefato explosivo. A bomba não detonou por falha técnica. As investigações apontaram que o atentado foi planejado por integrantes do acampamento golpista do QG do Exército, com o objetivo de gerar pânico e provocar uma intervenção militar.
Os envolvidos foram presos e condenados por crimes como explosão, incêndio e posse ilegal de armas. Posteriormente, eles também se tornaram réus no STF por crimes mais graves, incluindo tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
O 8 de janeiro e a memória democrática
Apesar do clima de tensão, a posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023, ocorreu sem incidentes. A aparente tranquilidade, no entanto, durou apenas uma semana, até a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.
Três anos depois, a data é marcada por atos e cerimônias em defesa da democracia. No Palácio do Planalto, o presidente Lula participa de um evento com autoridades e representantes da sociedade civil. O STF também promove uma programação especial dentro da campanha Democracia Inabalada, reforçando a importância da memória, da justiça e da defesa permanente do regime democrático no país.