Feliz Eleições Novas! Ou será que em 2026 teremos mais um ‘museu de grandes novidades’? Tudo indica que ainda se apostará numa essência naturalmente democrática das chamadas redes sociais. Porém, não é assim que a banda toca. As redes são simplesmente empresas particulares (nada contra empresas, muito pelo contrário). Justiça seja feita, as plataformas até facilitam o debate na sociedade com alcance e velocidade sem precedentes. Mesmo assim, são só empresas.
Por isso, são redes digitais e não redes sociais. As big techs não consistem nenhuma iniciativa coletiva da sociedade civil organizada, em defesa dos interesses legítimos de setores da população. Precisam remunerar seus donos com lucro (nada contra o lucro, muito pelo contrário). Estamos falando de cinco ou seis empresas com três ou quatro donos, geralmente ianques (nada contra o Tio Sam, muito pelo contrário). China e Rússia também estão ganhando importância, principalmente no ramo da IA. Os europeus largaram atrasados.
A questão é justamente que, sendo empresas, esses motores da democracia atual têm donos (nada contra os donos, muito pelo contrário). Um deles poderia desligar a tomada da democracia depois de uma noite mal dormida? É uma hipótese improvável, que derreteria as bolsas de valores. Mas, ilustra a influência do setor digital nos processos políticos.
Observe que movimentos como o Diretas Já, ou os Casas Pintadas, da década de 1980, não dispunham de instagram, facebook ou whatsapp, para levarem milhões de pessoas às ruas. Tratava-se de articulações duradouras de diferentes segmentos sociais e políticos. Não eram manifestações relâmpago que vão e vêm rapidamente, sem deixar legado ou avanços de natureza sociopolítica.
As gigantes digitais são hubs de atividades afins, consolidando o acesso a diferentes negócios antes independes, como imprensa, editoras, bancos, serviços públicos, telefonia, educação, água, energia, mobilidade urbana, armazenamento de dados, comércio, indústria e cultura, além de segurança pública, defesa, navegação marítima, aérea, espacial e outros depósitos e fluxos de informação – entre pessoas, mercados e governos. Tudo ao alcance do botão off na mesa do dono (assista ao provocativo Mountainhead no HBO Max). Basta lembrarmos como tudo para mundo afora quando uma dessas plataformas sofre alguma pane técnica.
A própria expressão ‘redes sociais’ foi copiada pelo jargão das big techs. Antes disso, o termo se referia a organizações reais dos movimentos sociais como os sindicatos, associações, fóruns participativos, entidades de bairro, ou de gênero e outras. Fernando Henrique Cardoso avisou em “Cartas a um Jovem Político” que podemos estar mais conectados, porém, menos integrados. Queria dizer que os fundamentos da democracia não podem ser confundidos com as praticidades de postar selfies em passeatas domingueiras. É preciso renovar as formas de organização social, de modo que o botão on-off da democracia volte para as mãos da sociedade.
Em 2026 teremos mais um teste de qualidade da democracia enquanto fundamento das sociedades modernas, seja no anarcocapitalismo, no socialismo, ou na social democracia. A realpolitik ainda terá o reforço das redes digitais (nada contra redes digitais, muito pelo contrário). Será que dessa vez já haverá alguma revitalização das redes sociais?
Felipe Sampaio: Foi Secretário-Executivo substituto no Ministério da Micro e Pequena Empresa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; ex-subsecretário de Segurança Urbana do Recife; atuou em grandes empresas, ONGs e programas multilaterais (Banco Mundial, ONU/PNUD, BID e OEA/IICA); cofundador do Centro Soberania e Clima; sócio da Terra Consultoria; foi empreendedor em mineração; presta assessoria à presidência do Ibram.