Em Cruzeiro do Sul, professor constrói o próprio túmulo para poupar a família de gastos funerários

Foto: Reprodução/ Instagram

A decisão pode soar incomum, mas nasceu da necessidade de organização e cuidado com a família. Morador de Cruzeiro do Sul, o professor Paulo Onofre Lopes Craveiro, de 60 anos, construiu o próprio túmulo ainda em vida para evitar que parentes enfrentem dificuldades logísticas e financeiras no futuro.

Deficiente visual desde 2023 e em tratamento de hemodiálise há seis anos, Paulo explica que a iniciativa foi motivada pelas limitações impostas pela saúde. “Quando a pessoa morre, tudo vira despesa: velório, caixão, sepultamento. Preferi deixar tudo organizado para minha família”, afirmou.

O jazigo foi construído no Cemitério São João Batista, em Tarauacá, município onde Paulo nasceu e passou grande parte da vida. A obra foi concluída em 2025, levou cerca de uma semana e custou aproximadamente R$ 6 mil, incluindo materiais e mão de obra. O local enfrenta problemas de superlotação, o que dificultou a ampliação de sepulturas já existentes da família.

Segundo o professor, a ideia surgiu há cerca de cinco anos, quando passou a conviver de forma mais intensa com as restrições da doença. “Eu só quis deixar tudo encaminhado. Aqui é passagem, ninguém fica para sempre”, disse.

Foto: Reprodução/ Instagram

O túmulo possui apenas uma gaveta, é revestido em porcelanato preto com detalhes dourados e traz uma cruz com asas de ferro, inspirada no Salmo 91, da Bíblia. Cada detalhe foi escolhido pelo próprio Paulo. “O preto representa o luto, e o dourado simboliza a luz”, explicou.

Natural de Tarauacá, conhecida como a “terra do abacaxi”, Paulo se mudou para Cruzeiro do Sul em 2020, após perder a função renal e precisar do tratamento contínuo. O município abriga uma das poucas clínicas de hemodiálise no interior do Acre. Ele também convive com complicações da diabetes, que resultaram na perda total da visão entre 2022 e 2023.

Para o filho, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro e morador do Mato Grosso, a decisão reflete o perfil independente do pai. “É algo fora do comum, mas ele sempre gostou de resolver tudo sozinho. Mesmo com as limitações, essa foi uma forma de manter a autonomia e não incomodar ninguém”, relatou.

Luã Silva Craveiro, filho de Paulo Onofre Lopes Craveiro, respeita a decisão do pai — Foto: Arquivo pessoal

Paulo afirma que sempre desejou ser enterrado em Tarauacá, onde estão sepultados outros familiares. No entanto, a falta de espaço no cemitério levou à decisão de construir um jazigo próprio. “Hoje é um sepultamento por cima do outro. Quando aparece um espaço, já tem outro embaixo”, contou.

Apesar do tema delicado, o professor encara a vida com tranquilidade. Ele mantém uma rotina ativa, mora com a mãe, de 82 anos, em um apartamento adaptado com recursos de acessibilidade, como leitores de tela e comandos de voz, e passa parte do tempo ouvindo podcasts e conteúdos informativos.

“A gente aprende até morrer. A vida é uma passagem. A morte é um mistério que todo mundo vai enfrentar, mas muita gente evita falar sobre isso”, refletiu.

Superlotação do cemitério

A situação do cemitério de Tarauacá é antiga. Em dezembro de 2022, a prefeitura anunciou o início da terraplanagem da área onde seria construído um novo cemitério municipal, mas, passados três anos, a obra ainda não foi entregue.

À época, o Ministério Público do Acre (MP-AC) instaurou um inquérito civil para apurar possível crime ambiental relacionado à ampliação do Cemitério São João Batista. O terreno havia sido adquirido por R$ 400 mil, mas, segundo o MP, não houve comunicação formal sobre licenciamento ambiental.

O então secretário de Meio Ambiente, Degilson Silva, afirmou que houve erro na divulgação inicial e explicou que a área possuía licença para exploração de barro e areia, sendo necessário primeiro cumprir o processo de recuperação ambiental antes de qualquer obra para implantação do novo cemitério.

Informações via G1 Acre.
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