Alçado por Paulo Guedes e Jair Bolsonaro (PL) à Presidência do Banco Central, cargo em que ocupou entre 28 de fevereiro de 2019 e 31 de dezembro de 2024, Roberto Campos Neto blindou o banqueiro Daniel Vorcaro e impediu, por ao menos duas vezes, a liquidação do Banco Master, que só teve suas atividades encerradas em 18 de novembro do ano passado, na gestão Gabriel Galípolo.
A reportagem de Alvaro Gabriel, na edição desta quarta-feira (28) do Estadão, marca uma virada na cobertura da mídia liberal, que ignorava as relações íntimas de Vorcaro com figuras do Centrão e do bolsonarismo e tentava focar em elos do banqueiro na cúpula do judiciário, como nos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e em figuras com trânsito no governo Lula.
O texto é baseado em um relatório enviado pelo próprio BC ao ministro Jhonatan de Jesus, relator do caso no Tribunal de Contas da União (TCU), que revela que Campos Neto teria atuado para evitar intervenção ou liquidação do Master em março e em novembro de 2024.
Segundo a reportagem, o ex-presidente do BC – neto de Roberto de Oliveira Campos, que foi Ministro do Planejamento e Coordenação Econômica no início da Ditadura Militar – teria prevaricado para buscar uma solução no “mercado”.
“À época, havia a expectativa de que o Master tivesse ativos que pudessem ser revendidos ao mercado, dentro da lógica de separação do “good bank” (parte boa do Master) e o “bad bank” (ativos podres do banco). Assim, o custo para o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seria menor”, diz o texto do Estadão.
A “solução”, no entanto, foi tentada por meio do Banco de Brasília, uma instituição pública, comandada pelo governo do Distrito Federal (GDF), comandado pelo também bolsonarista Ibaneis Rocha (MDB). A manobra, que causou sérios prejuízos para o BRB, foi o principal estopim para liquidação do Master e o desencadeamento das investigações sobre a rede de influência de Vorcaro, preso um dia antes do BC encerrar as atividades de seu banco.
Blindagem
De acordo com a reportagem, relatório do BC afirma que a “gestão de risco de liquidez” do banco de Vorcaro passou a ser acompanhada no primeiro semestre de 2024 devido ao “baixo estoque de ativos líquidos” – dinheiro em caixa – diante de “um cronograma forte de desembolsos para o pagamento de passivos”.
“Nessas circunstâncias, o Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência de liquidez atualizado”, afirma o documento entregue ao TCU.
O documento ainda diz que a crise no Master se agravou no semestre seguinte, com a “frustração do seu plano de negócios, que previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo – mas somente R$ 2 bilhões foram efetivamente captados”.
“Em função da atipicidade das operações, o Banco Central apurou a existência de irregularidades relacionadas a: insuficiência de capital, como resultado de ajustes determinados após se apurar que haviam sido prestadas informações incorretas à Autarquia; inexistência de ativos líquidos na composição de fundo de liquidez que dava amparo às operações estruturadas de longo prazo; e não atendimento de normas relativas ao gerenciamento do risco de crédito, inclusive por depender de informações prestadas por terceiros”, diz o BC, revelando o caos na instituição de Vorcaro.
Os alertas, que partiram do próprio BC, foram ignorados por Roberto Campos Neto que, em outubro de 2023, já havia editado uma norma alterando a contabilização de precatórios (dívidas judiciais), abrindo brecha para o Master maquiar seu balanço.
À época, O banco de Vorcaro tinha bilhões de reais em precatórios e direitos creditórios, que foram retirados de seu balanço e permitiu aporte de mais dinheiro na instituição.
Antes disso, em agosto, a Warren Investimentos – uma corretora e gestora de investimentos brasileira – já havia alertado sobre o risco de compras de CDBs, que pagavam até 150%, do banco. No entanto, as corretoras, ligadas a bancos como XP, BTG Pactual e Nubank seguiram propagando as vendas dos títulos podres do banco de Vorcaro.
Seis meses após deixar o BC, em 1º de julho de 2025, Campos Neto assumi9u os cargos de Vice-Chairman (Vice-Presidente do Conselho) e Chefe Global de Políticas Públicas do Nubank e membro não independente do Conselho de Administração da Nu Holdings. Campos Neto foi procurado pelo Estadão, mas não se pronunciou sobre o caso.
Leia a reportagem na íntegra.