O silêncio que também contamina: supermercados e o desprezo pelo consumidor

O que mais causa indignação no recente caso da apreensão de quase duas toneladas de alimentos impróprios para o consumo em supermercados de Sena Madureira não é apenas a gravidade das irregularidades encontradas. É, sobretudo, o silêncio ensurdecedor dos estabelecimentos envolvidos.

Após uma operação conjunta do Ministério Público, Vigilância Sanitária, Procon e forças de segurança revelar carnes em decomposição, risco de contaminação por veneno e relatos de possível reaproveitamento de produtos estragados, era esperado, no mínimo, um posicionamento público. Um pedido de desculpas. Uma explicação. Um compromisso com mudanças. Nada disso aconteceu.

Quando empresas que lidam diretamente com alimentos — e, portanto, com a saúde da população — optam por se calar diante de fatos tão graves, o recado que fica é perigoso: o de que o lucro fala mais alto do que a responsabilidade social. O silêncio não é neutro. Ele também comunica. E, neste caso, comunica descaso.

Não se trata de um erro pontual ou de uma falha administrativa simples. O que foi constatado pelas autoridades configura, segundo a lei, crime contra as relações de consumo. Produtos estragados, carnes com odor de putrefação, alimentos armazenados ao lado de veneno para rato. Isso ultrapassa qualquer limite de tolerância.

O consumidor não pode ser tratado como alguém que deve “aceitar” riscos invisíveis. Quem compra um alimento confia que ele passou por critérios mínimos de segurança. Quando essa confiança é quebrada, o mínimo que se espera é transparência. O silêncio, nesse contexto, soa quase como confissão.

É preciso dizer com clareza: supermercados não vendem apenas produtos, vendem confiança. E confiança, uma vez perdida, é difícil de recuperar. Um posicionamento público não apaga o ocorrido, mas demonstra respeito com a população e compromisso com mudanças reais.

Enquanto os responsáveis permanecem calados, cabe à sociedade cobrar, fiscalizar e lembrar que alimentação segura não é favor — é direito. O silêncio pode até ser estratégico no campo jurídico, mas no campo ético ele é inaceitável.

Porque quando quem vende comida se cala diante de alimentos podres, algo está muito errado.

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