Os protestos contra o regime do Irã perderam intensidade nos últimos dias após uma repressão considerada violenta por organizações de direitos humanos e moradores do país. Segundo relatos colhidos pela Reuters e por grupos independentes, as manifestações, que começaram no fim de dezembro, foram contidas temporariamente pela forte presença das forças de segurança e por um apagão quase total da internet.
De acordo com moradores de Teerã, a capital iraniana apresenta clima de aparente tranquilidade desde o último domingo. Eles afirmam não ter visto novos protestos na quinta e sexta-feira, embora relatem a presença constante de drones sobrevoando a cidade e de agentes de segurança nas ruas. Por questões de segurança, os entrevistados não quiseram se identificar.
O grupo curdo-iraniano Hengaw, com sede na Noruega, informou que não houve novos atos desde domingo. Segundo a organização, o ambiente segue altamente restritivo, com forte mobilização militar e policial tanto em cidades que registraram protestos quanto em regiões que não haviam sido palco de grandes manifestações.
Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, impulsionados pelo aumento da inflação e pela crise econômica agravada por sanções internacionais, e rapidamente se transformaram em um dos maiores desafios ao regime clerical que governa o Irã desde a Revolução Islâmica de 1979.
Mortes, denúncias e isolamento digital
Entidades de direitos humanos denunciam um cenário de extrema violência. O grupo Iran Human Rights estima que ao menos 3.428 manifestantes tenham sido mortos durante a repressão, citando execuções sumárias, inclusive de feridos em via pública, e o uso de armamento pesado contra civis. A Human Rights Watch classificou a repressão como um massacre sem precedentes.
Imagens verificadas pela AFP mostram necrotérios superlotados em áreas ao sul de Teerã. Paralelamente, o bloqueio da internet no país já ultrapassa 180 horas, segundo a Netblocks, superando apagões registrados em crises anteriores, como a de 2019. Especialistas apontam que o isolamento digital tem sido usado para dificultar a circulação de informações sobre a repressão.
Pressão internacional e recuo dos EUA
No cenário internacional, a ameaça de uma ação militar dos Estados Unidos perdeu força após intensa articulação diplomática de países do Golfo, como Arábia Saudita, Catar e Omã. Segundo autoridades da região, esses países alertaram o presidente Donald Trump sobre os riscos de uma escalada militar e as possíveis consequências para a estabilidade regional.
A Casa Branca afirmou que Trump segue monitorando a situação de perto e reiterou que haverá “graves consequências” caso as mortes continuem. A porta-voz Karoline Leavitt declarou que o presidente foi informado de que cerca de 800 execuções programadas de manifestantes teriam sido suspensas, embora ativistas locais ainda busquem confirmar a informação. Washington também anunciou sanções contra autoridades iranianas apontadas como responsáveis pela repressão.
Apesar do aparente arrefecimento das manifestações, organizações de direitos humanos alertam que a situação no Irã segue tensa e imprevisível, com denúncias graves ainda difíceis de verificar devido ao bloqueio de informações e à presença maciça das forças de segurança.