As chamadas canetas emagrecedoras devem responder por 20% da receita das grandes redes de farmácia até 2030, segundo projeção do Itaú BBA. O avanço reflete a rápida adoção dos agonistas de GLP-1 no país, classe de medicamentos que inclui o Ozempic e o Mounjaro.
A estimativa considera grupos de capital aberto como RaiaDrogasil, Pague Menos e Panvel. De acordo com relatório do banco, esses produtos já se aproximam de representar dois dígitos do faturamento total das redes.
A tendência deve ganhar força com o fim da patente da semaglutida, previsto para 20 de março de 2026. O Itaú BBA projeta que o mercado brasileiro desses medicamentos saltará de R$ 10 bilhões para R$ 50 bilhões até 2030, com crescimento médio anual de 40%.
“Temos uma combinação de uma população com percentual de sobrepeso relativamente alto e preocupação com estética. Em termos de procedimentos de cirurgia estética, o Brasil é o segundo país do mundo, só perde para os Estados Unidos”, afirma Rodrigo Gastim, analista de consumo e varejo do Itaú BBA.
Ele também aponta o uso sazonal como característica do mercado nacional. “No Brasil existe o uso sazonal, em que as pessoas utilizam o medicamento para se preparar para o verão”, diz o analista.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que, desde 2019, quando o Ozempic passou a ser vendido no país, o Brasil importou US$ 4,6 bilhões em medicamentos da categoria de hormônios polipeptídicos. Apenas em 2025, as compras somaram US$ 1,6 bilhão, crescimento de 459% em sete anos.
As redes farmacêuticas aparecem como principais beneficiárias desse avanço, por serem o canal obrigatório de venda ao consumidor final. “Com a quebra de patente, a Hypera, por exemplo, vai produzir o medicamento, mas não temos certeza se será a vencedora do mercado. Pode haver outro fabricante que se destacará. Já as drogarias venderão tudo”, diz Gastim.
A RaiaDrogasil, por exemplo, detém 17% de participação no mercado farmacêutico nacional, mas concentra cerca de 30% das vendas de agonistas de GLP-1. O CEO da companhia, Renato Raduan, comentou o impacto positivo do produto nos resultados. “O GLP-1 não é um efeito pontual, ele veio para ficar e vai continuar”, afirmou o executivo em novembro de 2025.
No caso da Pague Menos, o banco destaca ganho de participação após o lançamento do Mounjaro. “As grandes redes, que negociam melhor com a indústria, se beneficiam mais”, diz Gastim.
Com o vencimento da patente, a expectativa é de queda inicial de 30% nos preços, podendo chegar a 50% em cinco anos. Ainda assim, as margens tendem a permanecer elevadas devido ao aumento no volume de vendas.
Estudo da Rock Encantech mostra que o faturamento do varejo farmacêutico com as canetas cresceu 79,7% em 2025, a partir da análise de 22,4 milhões de transações. O avanço combina alta de 26% no volume comercializado e valorização de 43% no preço médio.
Segundo a consultoria, o medicamento está provocando mudança estrutural no comportamento do consumidor, que tem priorizado produtos de uso contínuo ligados à saúde. “O perfil desse novo consumidor é predominantemente feminino, com as mulheres representando 63% dos usuários, motivadas por um maior engajamento com cuidados preventivos”, afirma o estudo.
O movimento já impacta outros setores do varejo. O Assaí anunciou que antecipará sua entrada no segmento farmacêutico, com a abertura de 25 unidades até julho, todas integradas às lojas da rede.