Os três proprietários da academia C4 Gym, na Zona Leste de São Paulo, prestaram depoimento no fim da tarde desta quarta-feira (11/2) no 42º Distrito Policial (Parque São Lucas), no inquérito que investiga a morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, após um episódio de intoxicação na piscina do estabelecimento.
Indiciados por homicídio com dolo eventual, Celso Bertolo Cruz, Cesar Bertolo Cruz e Cezar Augusto Miquelof Terração detalharam à polícia como funcionava a divisão interna de responsabilidades na empresa e relataram o que souberam no dia da ocorrência. Em comum, os três afirmaram ter sido surpreendidos pelos fatos e atribuíram ao manuseio inadequado de cloro pelo funcionário responsável pela piscina a origem do problema.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Mulher morre e quatro pessoas são internadas após nadarem em piscina de academiaFoto: Reprodução A professora Juliana Faustino Bassetto morreu no último sábado (7/2) após um treino na unidade da academia.Portal LeoDias | Reprodução Produtos utilizados na piscina da academia C4 GymFoto: Reprodução Veja o momento em que mulher sai da piscina passando mal horas antes de morrer por intoxicaçãoFoto: Reprodução Mulher morre e quatro pessoas são internadas após nadarem em piscina de academiaFoto: Reprodução Mulher morre e quatro pessoas são internadas após nadarem em piscina de academiaFoto: Reprodução Produtos utilizados na piscina da academia C4 GymFoto: Reprodução Polícia não localiza donos de academia em SP onde professora morreu na piscinaPortal LeoDias Mulher morre e quatro pessoas são internadas após nadarem em piscina de academiaFoto: Reprodução Mulher morre e quatro pessoas são internadas após nadarem em piscina de academiaFoto: Reprodução Mulher morre por suspeita de intoxicação após nadar em piscina de academia de SPReprodução/Divulgação Mulher morre por suspeita de intoxicação após nadar em piscina de academia de SPReprodução/Divulgação
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Divisão de funções e manutenção da piscina
Em seu interrogatório, Celso Bertolo Cruz afirmou ser o sócio responsável pela manutenção predial da empresa Borghi Natação, grupo ao qual a C4 Gym está vinculada. Segundo ele, seu irmão Cesar Bertolo atua na área comercial e Cezar Augusto na administração.
Celso declarou possuir certificação para manutenção e tratamento de piscinas desde 2023. Disse que, após obter a habilitação, passou a responder tecnicamente pela piscina da academia, embora já realizasse a manutenção antes disso, quando não havia responsável técnico formal.
“Perguntado informa que é profissional devidamente habilitado para manutenção e cuidado de piscinas, possuindo certificado desde 2023. No que diz respeito ao que lhe foi ensinado no curso, perguntado, informa que em razão do curso, pode indicar terceiros a realizarem a manutenção de piscinas sob sua supervisão.”, diz trecho do depoimento.
De acordo com o depoimento, a manutenção cotidiana era executada pelo manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, sob sua supervisão. Celso explicou que o funcionário realizava medições da água e enviava fotos com os resultados, a partir das quais ele orientava a dosagem de cloro a ser aplicada.
Ao ser questionado pelo delegado sobre o fato do funcionário não ter usado equipamento de proteção ao manusear os produtos químicos, o sócio afirmou que a academia disponibiliza equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras, mas não soube informar por que Severino não utilizava os itens no momento dos fatos, nem se havia controle formal de entrega de EPIs.
Episódio anterior e recusa de contratação de empresa especializada
Celso também confirmou que, no início de 2025, houve um episódio em que a piscina apresentou turbidez e formação de espuma. Na ocasião, segundo ele, as aulas foram suspensas e uma empresa especializada foi contratada para normalizar a água, serviço que durou alguns dias.
Apesar de ter recebido proposta para terceirizar a manutenção de forma permanente, afirmou que optou por manter a atividade sob sua responsabilidade, por entender que os problemas eram pontuais e ligados à limpeza, sem risco à saúde. Ele ressaltou que seus próprios filhos, além de familiares de outros sócios, frequentam aulas na piscina.
“Pontua que os problemas na piscina sempre foram pontuais e relacionados à limpeza, mas jamais chegaram a ser nocivos à saúde, tanto é que considera a piscina de extrema confiança, seus filhos fazem natação no local”, afirma Celso em depoimento.
O que mostram as câmeras
Celso relatou que tomou conhecimento do ocorrido por volta das 14h10 de sábado (7/2), ao perceber chamadas não atendidas de Severino. Ao retornar, foi informado de que havia “algum problema com o cloro”, que pessoas tinham passado mal e que o prédio havia sido evacuado.
Em seguida, conversou com o coordenador de natação, Marcel, que teria descrito imagens do sistema interno de monitoramento. Segundo o relato, as câmeras mostrariam Severino abrindo um balde com cloro em pó na área próxima à piscina e agitando o recipiente, o que teria provocado a dispersão de uma névoa do produto. Depois, ele teria guardado o balde sem utilizar o conteúdo.
Na sequência, ainda conforme o depoimento, o funcionário levou até a borda da piscina um outro balde com cloro já diluído, procedimento que seria habitual ao término das aulas, desde que o recipiente permanecesse tampado.
Celso afirmou desconhecer o motivo pelo qual Severino teria manuseado o cloro em pó daquela forma, classificando a conduta como desnecessária e equivocada. À autoridade policial, declarou ter certeza de que o funcionário “errou ao manusear cloro em pó nas proximidades da piscina”.
Ele também admitiu ter apagado mensagens trocadas com Severino no dia dos fatos, alegando que agiu de forma desesperada ao saber da morte da aluna. Disse, no entanto, que o conteúdo se referia apenas a orientações rotineiras sobre medição e dosagem de cloro.
“Perguntado sobre eventuais mensagens que enviou ao funcionário SEVERINO na data dos fatos e que tenha excluído, informa que tão logo soube que a aluna JULIANA tinha falecido acabou ficando desesperado e sem pensar acabou apagando algumas mensagens, mas esclarece que o teor das mensagens dizia respeito apenas às tratativas normais com SEVERINO, ou seja, medições e dosagens de cloro aplicadas na piscina, afirmando que neste ato revelou todo conteúdo da conversa com SEVERINO e com certeza não divergirá do que foi dito por ele, por ser a verdade”.
Decisão de aguardar até domingo
Cesar Bertolo Cruz, responsável pela área comercial, afirmou que não participa da rotina operacional da academia. Segundo ele, soube do caso na noite de sábado, quando estava com o sócio Cezar Augusto e recebeu ligação de uma funcionária informando que uma aluna havia passado mal e estava hospitalizada.
Minutos depois, a colaboradora teria retornado com a notícia do falecimento. Diante da informação, os três sócios realizaram uma chamada de vídeo com um advogado criminalista. Como, segundo eles, ainda não havia confirmação oficial das autoridades, decidiram aguardar até a manhã de domingo para tomar providências.
Cesar disse que tinha conhecimento de que Severino foi contratado como manobrista e também para auxiliar na manutenção da piscina, sempre sob supervisão de Celso, que o teria treinado. Afirmou ainda que o antigo tratador da piscina também participou da capacitação.
Ele declarou que apenas reclamações pontuais e sem gravidade sobre a qualidade da água chegaram ao seu conhecimento e que, após assistir às imagens divulgadas pela imprensa, estranhou o manuseio do produto químico, classificando o procedimento como fora do padrão técnico.
Gestão financeira e documentação
Cezar Augusto Miquelof Terração, responsável pela área financeira, disse que também tomou conhecimento do caso na noite de sábado, por meio da mesma funcionária. Confirmou a realização da chamada de vídeo com os sócios e o advogado e relatou que, no domingo, soube que bombeiros já haviam acessado o prédio.
Ele afirmou não acompanhar a rotina da piscina e declarou que sempre confiou nas condições do local, ressaltando que sua mãe e sua filha frequentam aulas na academia.
Sobre a estrutura empresarial, explicou que existem dois CNPJs: um da Borghi Natação, que administra oito filiais, e outro da C4 Gym Franchise, voltado à gestão de franquias. Informou ainda que o AVCB e a documentação da Vigilância Sanitária estão regulares, mas confirmou que o alvará de funcionamento da Prefeitura está vencido.
Investigação em andamento
Os depoimentos integram o conjunto de provas analisadas pela Polícia Civil, que já indiciou os três empresários por homicídio com dolo eventual. A principal linha de investigação aponta para possível liberação de gases tóxicos decorrente do manuseio inadequado de cloro em ambiente fechado.
A Justiça ainda deve analisar o pedido de prisão formulado pelo delegado do caso. Enquanto isso, o inquérito segue em andamento para esclarecer as responsabilidades criminais pelo episódio que resultou na morte da professora e na internação de outros frequentadores da academia.