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Obesidade cresce 118% no Brasil e já atinge 1 em cada 4 adultos, aponta pesquisa

Por Portal Leo Dias 28/02/2026 07:27
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A obesidade no Brasil mais que dobrou desde 2006. Dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgados pelo Ministério da Saúde, mostram que a prevalência da doença saltou 118% no período, alcançando 25,7% da população adulta em 2024, o equivalente a um em cada quatro brasileiros. O portal LeoDias conversou com especialistas, a médica endocrinologista Dra. Camila Ribeiro e o nutrólogo Rubem Regoto, que explicaram que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante, e o quanto os dados do Vigitel são alarmantes.

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Quando considerado o sobrepeso, definido por índice de massa corporal (IMC) acima de 25 kg/m², o cenário é ainda mais amplo: 62,6% dos adultos estão acima do peso, uma alta de 46,9% desde o início da série histórica.

O avanço foi mais expressivo entre jovens de 25 a 34 anos, mulheres e pessoas com ensino médio completo e superior incompleto.

Os números colocam o país acima da média global. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 16% dos adultos no mundo vivem com obesidade, enquanto 43% apresentam sobrepeso.

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Cenário pode ser ainda mais grave
Embora o Vigitel ouça apenas moradores das capitais, dados de 2025 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), obtidos a partir de atendimentos na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS), indicam um quadro ainda mais preocupante: 36,3% dos adultos atendidos no último ano tinham obesidade, e 70,9% estavam acima do peso.

Entre os estados, o Rio Grande do Sul lidera, com 42% dos adultos com obesidade, seguido pelo Rio de Janeiro (40,6%). Na outra ponta estão Maranhão (26,8%) e Piauí (29,5%).

“Já é um problema de saúde pública”
Ao portal LeoDias, a médica endocrinologista Dra. Camila Ribeiro, explicou que o crescimento acelerado da obesidade reflete uma transformação no ambiente e no estilo de vida da população.

“Estamos vivendo uma transformação ambiental. Hoje temos mais ultraprocessados, mais sedentarismo, menos sono e mais estresse. O nosso organismo foi programado para economizar energia, não para lidar com excesso constante. O resultado é um aumento progressivo de gordura corporal, principalmente abdominal, que está diretamente ligada a diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Isso já é um problema de saúde pública.”

Segundo ela, o sobrepeso não é apenas uma questão estética. “Ele aumenta o risco de diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol elevado, gordura no fígado, infarto e AVC. Não é apenas uma questão estética, é metabólica.”

A médica explica que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. “Significa que não é algo passageiro. Ela envolve genética, hormônios, ambiente, comportamento e saúde emocional. E o corpo tende a recuperar o peso perdido se o tratamento for interrompido. Por isso, falamos em acompanhamento contínuo e não em solução rápida.”

Sobre o avanço maior entre jovens e mulheres, Camila aponta fatores comportamentais e hormonais. “Nos jovens, vemos mais tempo de tela, menos atividade física e sono irregular. Nas mulheres, além da sobrecarga emocional e social, há influência hormonal — gestação, alterações hormonais e maior impacto do estresse.”

Ela também destaca o impacto do sono insuficiente. “Dormir pouco aumenta a grelina (hormônio da fome), diminui a leptina (hormônio da saciedade) e piora a ação da insulina. Isso gera mais fome e maior facilidade para ganhar peso. Sono é parte do tratamento.”

Ambiente alimentar e inflamação crônica
Para o nutrólogo Rubem Regoto, também entrevistado pelo portal LeoDias, os números refletem um problema estrutural.

“Quando olhamos os dados do Vigitel, não vemos apenas números. Vemos cinturas aumentando, exames alterando, e um país inflamado cronicamente e desenvolvendo em consequência disso alterações metabólicas seríssimas.”

Ele afirma que o avanço da obesidade está ligado ao ambiente alimentar moderno. “O inimigo não é a comida isoladamente. É o ambiente e os ‘novos’ hábitos: ultraprocessados baratos, estresse crônico, sono ruim e um sedentarismo aumentando silenciosamente.”

Segundo o especialista, alimentos ultraprocessados provocam alterações hormonais e inflamatórias. “Eles ativam o cérebro como uma droga leve. Alta palatabilidade, pico de dopamina, compulsão. No corpo: inflamação, resistência à insulina, alteração da microbiota.”

Regoto reforça que a obesidade vai além da alimentação. “A obesidade é um estado inflamatório crônico. A gordura visceral funciona como um órgão inflamatório ativo. Há desregulação de insulina, cortisol, hormônios sexuais. Não é apenas estética. É biologia alterada.”

Medicamentos, cirurgia e SUS
A endocrinologista explica que medicamentos são indicados, em geral, para pacientes com IMC acima de 30, ou acima de 27 quando há doenças associadas, sempre com mudança de estilo de vida e acompanhamento médico.

Ela cita as chamadas “canetas”, como Wegovy e Mounjaro, indicadas para pacientes com obesidade ou sobrepeso com comorbidades. “São eficazes, mas precisam de prescrição e acompanhamento.”

Sobre a ausência desses medicamentos no SUS, Camila avalia que o debate é necessário. “A obesidade já gera altos custos ao sistema de saúde. Discutir acesso a tratamento também é discutir prevenção de infarto, AVC e diabetes no futuro.”

Já a cirurgia bariátrica é indicada para IMC acima de 40, ou acima de 35 com doenças associadas, após tentativa de tratamento clínico estruturado.

“Não é falta de força de vontade”
Ambos os especialistas reforçam que a obesidade não deve ser encarada como falha individual.

“Não falamos em cura. Falamos em controle”, afirma Camila. “O corpo reage à perda de peso reduzindo o gasto energético e aumentando a fome. Por isso, manutenção exige estratégia e acompanhamento.”

O nutrólogo deixa um recado para quem enfrenta a balança: “Primeiro: você não é fraco. Você foi exposto a um ambiente que favorece o ganho de peso. Mas isso não define seu futuro. Existe um caminho. E ele começa com informação, estratégia e não com culpa.”

Diante do avanço consistente dos índices, especialistas defendem políticas públicas, acesso ampliado a tratamento e combate ao estigma para enfrentar o que já é considerado um dos maiores desafios de saúde pública do país.

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