Tem algo muito interessante acontecendo com a Grazi Massafera neste momento duplo na TV e talvez a dimensão disso ainda não tenha sido totalmente percebida.
Ela está simultaneamente no ar como Arminda, em “Três Graças”, uma vilã assumidamente caricata, quase saída de um livro de histórias infantis, exagerada, cheia de trejeitos, com aquele tom que beira a fábula. É uma antagonista construída no excesso, no deboche, no traço marcado. E Grazi se joga nisso sem medo de parecer “demais”. Ao contrário: ela entende exatamente o tamanho da personagem e entrega justamente esse exagero com consciência.
Ao mesmo tempo, ela vive Dona Beja na nova versão da novela homônima da HBO Max: uma personagem histórica, lendária, eternizada por Maitê Proença nos anos 80 e cercada de memória afetiva, comparação inevitável e uma aura quase intocável. E o mais impressionante é que parecem duas atrizes completamente diferentes.
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Como Arminda, Grazi trabalha num registro mais lúdico, quase teatral, abraçando o exagero da vilã clássica. Já como Dona Beja, ela entra em outra frequência. A personagem exige densidade, sensualidade, força emocional e, principalmente, segurança. E é exatamente isso que ela demonstra.
Se muita gente achou que Larissa, de “Verdades Secretas”, tinha sido o grande divisor de águas da carreira dela — e foi mesmo um papel importante — talvez esteja na hora de rever essa avaliação. Porque o que ela faz como Dona Beja é de outro nível. Não é apenas coragem. É maturidade artística.
Grazi não teve pudor algum em aceitar uma personagem que aparece nua, que vive cenas intensas de sexo, que é construída a partir do desejo e do poder feminino. Mas nada ali soa apelativo ou gratuito. Existe domínio, consciência do próprio corpo, da própria imagem e da força dramática que ela carrega hoje.
Dona Beja sempre foi uma personagem maior do que a trama. É uma mulher que virou mito. Assumir esse papel exige não só talento, mas também personalidade para não se esconder atrás da comparação com a versão original. Grazi não tenta reproduzir Maitê Proença. Ela constrói a própria Beja. E constrói com tanta segurança que é difícil imaginar outra atriz nesse lugar agora.
Existe uma coincidência interessante nisso tudo: enquanto interpreta uma mulher que virou lenda, Grazi parece também entrar numa fase quase lendária da própria trajetória. Ela já não precisa provar nada para ninguém, mas continua se desafiando.
E talvez seja justamente essa combinação — risco, maturidade, ausência de medo e entrega total — que transforma este no melhor momento da carreira dela.
Se alguém ainda duvida, basta assistir. Em Arminda e em Dona Beja, está ali uma atriz em plena forma — e plenamente consciente do tamanho que tem hoje.