Nesta terça-feira (24), Jorginho (Juliano Cazarré) morre tentando salvar a própria filha, Joélly (Alana Cabral), num gesto que, na superfície, parece sacramentar sua redenção definitiva em “Três Graças”. Mas, se a novela construiu essa trajetória como um arco de regeneração, o público não recebeu o desfecho de forma unânime e isso diz muito sobre o que a trama despertou.
Desde que o personagem passou a ser retratado como um homem “reabilitado”, a discussão deixou de ser apenas dramática e virou quase sociológica. Há quem enxergue na narrativa a possibilidade real de transformação. Afinal, pessoas podem mudar. A própria novela insiste nessa ideia: ninguém é totalmente irrecuperável. Mas o incômodo surge justamente no “como”.
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Parte do público questiona se a redenção de um homem que já cometeu crimes graves pode — ou deve — ser mediada quase exclusivamente pela religião. A conversão de Jorginho, retratada como divisor de águas em sua trajetória, foi vista por alguns como uma abordagem sensível; por outros, como simplificação perigosa. Houve quem levantasse a discussão: por que atrelar a reabilitação a um único caminho espiritual? E mais: será que fora da religião essa regeneração também funcionaria?
Outro ponto que reverberou foi o olhar das vítimas. A ideia de que a redenção pode existir, mas não necessariamente reparar o dano causado, aparece com força nas reações. Porque, mesmo que o agressor mude, o estrago permanece. E a novela, ao que tudo indica, não ignora isso: a dor de Gerluce (Sophie Charlotte) não é apagada apenas porque o personagem decidiu se transformar.
A morte de Jorginho salvando a filha funciona, dramaticamente, como selo final de sacrifício. É o gesto máximo de abnegação. Mas também levanta a pergunta inevitável: o heroísmo no último capítulo é suficiente para reescrever o passado?
Há quem considere o caminho escolhido “perigoso”, por flertar com uma espécie de propaganda moral: como se bastasse fé para resolver traumas profundos. Outros entendem que a novela não está absolvendo o personagem, mas propondo reflexão: é possível mudar? Sim. Isso apaga o que foi feito? Não.
No fim, a trajetória de Jorginho talvez tenha cumprido exatamente o que uma boa novela deve provocar: debate. Ele morre tentando salvar a filha em um gesto nobre, incontestável. Mas a discussão que fica é mais complexa do que a cena de heroísmo. “Três Graças” não entregou uma resposta fechada. Entregou um espelho. E o público reagiu de acordo com suas próprias crenças, vivências e limites para o perdão.