A terça-feira (24) foi simbólica para “Três Graças”. No meio de uma sequência já intensa — marcada por morte, parto clandestino e tensão dramática — a novela das nove da Globo exibiu a primeira cena de sexo entre duas mulheres no horário nobre da Globo. Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovski) protagonizaram um momento histórico.
E o mais importante: foi bonito e sem apelação. A direção optou pelo caminho da delicadeza. Luz suave, enquadramentos que privilegiavam o afeto, o toque, a respiração compartilhada. Como deve ser qualquer cena de intimidade entre dois personagens; independentemente de gênero.
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Num contexto em que, nos últimos anos, beijos e romances LGBTQIA+ sofreram cortes, ajustes ou recuos na TV aberta, o gesto ganha ainda mais peso. A atual gestão da emissora já foi criticada por decisões consideradas conservadoras em determinados momentos. Por isso, a exibição dessa cena não é apenas dramaturgia; é também posicionamento e uma “mudança de rota”.
Nos bastidores, comenta-se que Luiz Henrique Rios, diretor da novela e recém-promovido dentro da emissora, é um defensor ferrenho do produto e da sua coerência artística. E essa sequência carrega a assinatura de quem entende que representação não pode ser tratada como concessão, mas como parte orgânica da narrativa.
E talvez seja esse o maior avanço. Porque, durante muito tempo, relações entre mulheres na TV aberta brasileira foram invisibilizadas, suavizadas ao extremo ou enquadradas sob um olhar masculino. Aqui, não. O foco estava nas personagens. Na construção emocional delas e em sua na naturalidade.
Foi uma cena de amor e isso, em pleno horário nobre, é um marco. A Globo não apenas exibiu a sequência: exibiu sem pedir desculpas e sem transformar em evento escandaloso. Integrada ao capítulo como parte da vida daqueles personagens. Ponto para “Três Graças”, ponto para a direção e, desta vez, ponto também para a emissora. Porque representar com respeito é o mínimo. Mas, no histórico recente da TV aberta, ainda é conquista.