A coalizão liderada pela primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, obteve uma vitória eleitoral histórica neste domingo (8), abrindo caminho para a implementação de uma agenda ambiciosa que inclui cortes de impostos e o fortalecimento dos gastos militares, em meio a tensões com a China e preocupações dos mercados financeiros.
Primeira mulher a chefiar o governo japonês, a conservadora de 64 anos deve garantir cerca de 328 das 465 cadeiras da Câmara Baixa para o Partido Liberal Democrático (PLD), ultrapassando com folga os 233 assentos necessários para a maioria absoluta. O resultado foi praticamente confirmado menos de duas horas após o fechamento das urnas, marcando um dos melhores desempenhos eleitorais da história do partido.
Com o apoio do Partido da Inovação do Japão (Ishin), parceiro de coalizão, Takaichi passa a contar com uma maioria qualificada de dois terços, o que facilita a aprovação de projetos e permite ao governo contornar eventuais resistências da Câmara Alta, onde a coalizão não tem controle.
Durante entrevista concedida enquanto os votos ainda eram contabilizados, Takaichi afirmou que a eleição representou uma virada significativa na política do país. Segundo ela, temas como mudanças na política econômica, fiscal e o reforço da segurança nacional estiveram no centro do debate. “São políticas que enfrentaram muita oposição. Se recebemos o apoio do público, devemos implementá-las com determinação”, declarou.
A primeira-ministra convocou uma rara eleição antecipada de inverno no hemisfério norte para aproveitar o momento de alta popularidade, conquistada após assumir a liderança do PLD no fim do ano passado. A estratégia se mostrou eficaz, mesmo diante das dificuldades climáticas: fortes nevascas atingiram diversas regiões, afetaram o transporte e levaram ao fechamento antecipado de algumas seções eleitorais. Esta foi apenas a terceira eleição nacional realizada em fevereiro no Japão desde o pós-guerra.
Apesar das condições adversas, eleitores enfrentaram temperaturas abaixo de zero para votar. Na cidade de Uonuma, na província montanhosa de Niigata, o professor Kazushige Cho, de 54 anos, afirmou que Takaichi transmite uma sensação de rumo claro para o país. “Parece que o Japão inteiro está avançando na mesma direção”, disse.
A popularidade da premiê também se reflete entre os jovens, grupo que ajudou a reverter a recente queda do PLD. Takaichi chegou a inspirar uma onda apelidada de “sanakatsu”, uma espécie de “Sanae-mania”, com itens pessoais da líder, como sua bolsa e caneta rosa, tornando-se objetos disputados.
No entanto, nem todos receberam o resultado com entusiasmo. A promessa de suspender o imposto de 8% sobre a venda de alimentos, para aliviar o impacto da inflação sobre as famílias, gerou preocupação entre investidores, que questionam como o país — dono do maior nível de endividamento entre as economias avançadas — irá financiar a medida. Takaichi afirmou que o governo deve acelerar a análise da proposta, priorizando a sustentabilidade fiscal.
Para analistas, ainda há incertezas. “Os planos de corte do imposto sobre o consumo levantam dúvidas sobre o financiamento e o equilíbrio das contas públicas”, avaliou Chris Scicluna, chefe de pesquisa da Daiwa Capital Markets Europe, em Londres.
No cenário internacional, a vitória foi bem recebida por aliados. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio total à primeira-ministra e afirmou que ela será recebida na Casa Branca no próximo mês. Já o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, foi um dos primeiros líderes estrangeiros a parabenizá-la, destacando a expectativa de um futuro mais seguro e próspero para a região.
A China, por outro lado, acompanha o resultado com cautela. Poucas semanas após assumir o cargo, Takaichi provocou a maior crise diplomática com Pequim em mais de uma década, ao detalhar publicamente como o Japão poderia reagir a um eventual ataque chinês a Taiwan. A resposta chinesa incluiu contramedidas diplomáticas e alertas para que seus cidadãos evitassem viagens ao Japão.
Com o forte mandato obtido nas urnas, a primeira-ministra pode acelerar seus planos de reforço das defesas japonesas, o que tende a aumentar ainda mais as tensões com Pequim. O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, afirmou que o governo pretende fortalecer a segurança nacional sem abandonar o diálogo com a China.
Para especialistas em geopolítica, o recado das urnas é claro. “Pequim agora precisa lidar com a realidade de que Takaichi está firmemente no poder, e que as tentativas de isolá-la fracassaram”, avaliou David Boling, diretor da Asia Group.