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Aluguéis nas alturas em Sena Madureira pressionam comércio e encarecem a vida da população

Foto ilustrativa

A apenas 145 quilômetros de Rio Branco, esta cidade do interior do Acre vive um paradoxo econômico que sufoca seus munícipes e ameaça a sobrevivência do comércio local: os aluguéis, tanto comerciais quanto residenciais, atingiram patamares que não apenas igualam, mas, em muitos casos, superam os praticados na capital do estado. O fenômeno, que especialistas locais classificam como uma “bolha especulativa sem justificativa”, está gerando um efeito dominó que encarece o custo de vida, empurra o consumidor para as compras online e coloca em xeque a sustentabilidade de negócios tradicionais na cidade.

Nas principais ruas comerciais de Sena Madureira, o valor para se manter um ponto comercial tornou-se, nas palavras de muitos lojistas, “peso de ouro”. “O aluguel da minha lojinha aqui no centro é maior do que o de um amigo meu que tem uma loja três vezes maior em um bairro comercial de Rio Branco”, desabafa uma comerciante do ramo de vestuário, que preferiu não se identificar para não criar atritos com o proprietário do imóvel. “Como eu não repasso esse custo para o produto? E aí o cliente chega, acha caro e vai comprar no celular, no Mercado Livre ou na Shein.”

A migração do consumidor para o e-commerce é a consequência mais visível dessa crise. O que antes era uma alternativa para produtos específicos tornou-se o principal meio de compra para uma parcela significativa da população. Sites como Mercado Livre, Shein e Shopee não são mais vistos apenas como uma opção, mas como a única via para um orçamento familiar equilibrado. “Eu compro tudo online. Até material de escola dos meus filhos. Leva mais tempo para chegar, mas a economia é de mais de 50% em quase tudo”, conta Maria Silva, doméstica e mãe de três. “Loja aqui em Sena é só para olhar na vitrine, porque comprar mesmo não dá.”

O problema, segundo analistas, é que esse ciclo vicioso cria uma armadilha para o comércio local. Para cobrir os custos exorbitantes do aluguel, o lojista é forçado a encarecer seus produtos. Com preços mais altos, a clientela diminui e migra para a concorrência online. Com o faturamento em queda, a pressão sobre o aluguel se torna ainda mais insustentável. O resultado é o fechamento de estabelecimentos que, por vezes, são referências na cidade há décadas.

A tentativa de justificar os reajustes nos preços das mercadorias com argumentos frágeis, como a recente alegação da alta do combustível, tem encontrado um consumidor mais crítico e informado. “A gente ouviu lojista dizendo que o preço da farinha subiu por causa do diesel. Mas o diesel não subiu, e a farinha já tinha chegado aqui no estoque. Isso é pura ambição”, critica João Pereira, aposentado e frequentador assíduo do comércio local. “Falta consciência. O comerciante quer ganhar o valor do aluguel de volta em um mês, e o consumidor é quem paga a conta.”

A questão residencial segue o mesmo padrão. O aluguel de casas e apartamentos em Sena Madureira também disparou, tornando-se um dos maiores gargalos no orçamento das famílias. Moradores relatam que é comum encontrar valores de aluguel na cidade equivalentes aos de bairros bem mais estruturados em Rio Branco, sem que a infraestrutura local ofereça contrapartidas.

Diante do cenário, a cobrança por uma fiscalização mais rigorosa e por uma postura mais consciente dos proprietários de imóveis cresce. “Não se trata de controle de preços, mas de evitar a especulação desenfreada, que não tem qualquer amparo na realidade econômica da cidade”, defende um advogado local especializado em direito imobiliário. “Precisa haver um equilíbrio, uma consciência de que, ao sufocar o comércio e a população, o proprietário também está cavando a sua própria ruína a longo prazo.”

Enquanto não há uma solução à vista, o que se observa é a lenta erosão da vitalidade comercial de Sena Madureira. As vitrines permanecem, mas os clientes estão cada vez mais distantes, conectados a um universo de compras digitais com o qual a cidade parece não conseguir competir. A distância de 145 km para a capital, que deveria ser uma vantagem logística, tornou-se, ironicamente, um marco da distância entre a realidade econômica local e a racionalidade do mercado.

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