Quase cinco anos após a morte do médico Bruno Calaça Barbosa, assassinado durante uma festa em Imperatriz (MA), a família afirma que o processo contra o segundo réu do caso segue sem avanços concretos. Em entrevista exclusiva ao portal LeoDias, o irmão da vítima, Willian Calaça, e o pai, Rogério Cardoso, disseram que ainda aguardam a marcação do júri popular de Ricardo Pereira da Silva, acusado de ter instigado o policial que efetuou o disparo.
Bruno tinha 24 anos e comemorava a formatura em Medicina quando foi baleado na madrugada de 26 de julho de 2021. Câmeras de segurança registraram o momento em que ele discutiu com o então soldado da Polícia Militar do Maranhão, Adonias Sadda, que efetuou o disparo. O policial foi julgado e condenado a 23 anos de prisão e, segundo a família, atualmente cumpre pena.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Bruno Calaça foi morto a tiro a queima roupa em 2021Reprodução: Arquivo pessoal Ricardo Pereira da SilvaReprodução: Arquivo pessoal O cadastro de Ricardo como advogado está disponível no Cadastro Nacional dos Advogados (CNA)Reprodução: CNA Adonias Sadda, ex-PM responsável por atirar em BrunoReprodução: Arquivo pessoal Willian Calaça, irmão de BrunoReprodução: Arquivo pessoal
Voltar
Próximo
Leia Também
Notícias
Anestesista vira réu após morte de influenciador que fecharia costas com tatuagem em SC
Notícias
Pais que acusam médico de negligência detalham sintomas do filho antes da morte
Notícias
Pais que culpam médico por morte de bebê expõem mais denúncias: “Não é caso isolado”
Notícias
Médico é morto por crocodilo após cair em rio na Austrália
O caso, porém, ainda conta com um segundo acusado à espera de julgamento. De acordo com Willian, o processo contra Ricardo não apresentou avanços significativos desde a denúncia. “A impressão que temos é que não houve progresso. Quase cinco anos depois, ele segue em liberdade e levando a vida normalmente, mesmo respondendo a um processo por homicídio”, afirmou. Segundo o irmão de Bruno, imagens da festa indicariam que Ricardo teria insistido para que Adonias se dirigisse até a vítima. “Durante toda a filmagem, ele fica insistindo para que Adonias vá até meu irmão, puxando-o pelo braço. Ele chega a agredir meu irmão”, disse.
Segundo ele, a família reuniu informações indicando que o réu estaria cursando Medicina no Paraguai. “Tivemos acesso a fotos de Ricardo em eventos da faculdade. Conseguimos o número de matrícula dele, o nome da instituição. Passamos tudo para a promotoria e não obtivemos nenhum avanço no processo, mesmo com ele descumprindo as medidas cautelares. Não está comparecendo à comarca da cidade onde afirmou que estaria ‘morando e trabalhando’”, disse Willian, indignado com a situação.
O pai de Bruno, Rogério, relata que a família tomou conhecimento da suposta graduação no exterior por meio de terceiros e chegou a informar à Justiça. “A pessoa soube do que estava acontecendo aqui e entrou em contato comigo. Informou que ele estava estudando lá, que namorava com a irmã dessa pessoa e que estava muito preocupada com isso. Eu repassei primeiro para a Justiça, mas não foi feito nada”.
Segundo Rogério, após a divulgação do caso nas redes sociais e na universidade onde o réu estudaria, na Ciudad del Este, estudantes teriam organizado protestos. Depois disso, ele afirma que o paradeiro do acusado voltou a ser incerto. “A gente não sabe se ele continuou estudando em outra cidade, em outra universidade ou não. Mas temos informação de que ele está agora numa cidade vizinha, chamada Arame”, contou.
Mesmo após a fase de recursos da decisão que levou o réu a júri popular, a família afirma não ter recebido qualquer previsão para a realização do julgamento. “Não existe nenhuma previsão concreta, não nos foi informado nada. Ele se encontra respondendo em liberdade, sem nenhuma restrição, sem tornozeleira, podendo ir a festas, chegar em casa à hora que quiser, inclusive no final de semana”, disse Rogério.
Motivação do crime
Um dos principais pontos que a família espera ver esclarecido no julgamento é a motivação de Ricardo. Segundo Willian, imagens analisadas durante o júri de Adonias Sadda, o ex-policial militar que também foi réu e condenado a 23 anos de prisão por ter atirado contra Bruno, mostram que Ricardo teria se aproximado várias vezes da mesa onde a vítima estava durante a festa.
“Durante a filmagem, Ricardo fala com meu irmão, abraçando-o, mas não há nenhum momento de discussão. Então não dá para entender o porquê de tudo isso. Na filmagem que vimos durante o júri popular de Adonias, Ricardo se dirige à nossa mesa pelo menos três ou quatro vezes, e Adonias sempre o afastava. O próprio Adonias alegou no julgamento que Ricardo disse que meu irmão estava armado, e esse teria sido o motivo dele se dirigir até meu irmão. Segundo o ex-PM, esse foi o único motivo de ter sido convencido a se aproximar de Bruno”, afirmou Willian Calaça.
A família contesta a alegação e diz que o médico jamais portava armas. “Meu irmão nunca pegou em nenhum canivete para andar na rua, muito menos em uma arma. Queria muito saber o que motivou Ricardo a fazer tudo isso, sendo que não houve discussão entre eles e meu irmão. Eles não se conheciam antes da festa”, disse. Para Willian, essa afirmação de Ricardo teria sido feita para convencer Adonias a se dirigir ao seu irmão. Para o pai, essa é a principal questão que ainda precisa ser esclarecida: o motivo de Ricardo ter supostamente inventado a história.
Impacto na família
Além da busca por respostas, a família afirma que o crime deixou marcas profundas, especialmente na mãe de Bruno. “Minha mãe hoje faz uso de diversos antidepressivos, com episódios de internação psiquiátrica devido à depressão grave”, relatou Willian. “Saímos de uma fase de máxima felicidade, formando o primeiro médico da família, para a tristeza mais profunda, que foi a perda do meu irmão. Ele formou-se pelo programa do ProUni, com bolsa 100%”, contou, saudosista e orgulhoso do irmão falecido.
Durante a escola, Bruno conquistou medalhas na Olimpíada Maranhense de Química e, na faculdade, atuou como monitor remunerado. “Tiraram do Bruno a chance de realizar os sonhos dele, de conquistar suas próprias conquistas e constituir família; um menino de 23 anos, formado em Medicina, tinha muitos sonhos a realizar”, disse Rogério.
Pedido de visibilidade
Ao voltar a falar publicamente sobre o caso, a família afirma que o objetivo é pressionar para que o julgamento do segundo réu seja finalmente marcado. Para Willian, também é necessário questionar a liberdade do acusado enquanto aguarda julgamento. Já o ex-PM Adonias Sadda segue cumprindo pena em regime fechado.
O portal LeoDias não localizou o contato da defesa de Ricardo Pereira da Silva. O espaço está aberto para esclarecimentos.

