A HBO Max disponibilizou na última segunda-feira (23) os capítulos finais de “Dona Beja”, fechando os 40 episódios da novela e o resultado escancara uma produção que tinha potencial de sobra, mas que não conseguiu esconder, na tela, os próprios bastidores turbulentos.
Gravada com bastante antecedência e lançada quase dois anos depois, a novela carrega marcas claras desse intervalo. A montagem irregular salta aos olhos: cenas cortadas de forma brusca, sequências que não se conectam e uma sensação constante de narrativa quebrada, como se pedaços importantes tivessem sido deixados pelo caminho. Não é algo, no entanto, que tire o brilho do projeto. Pelo contrário. “Dona Beja” é uma excelente novela e merece ser vista.
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A ausência de ganchos entre os capítulos compromete a experiência de quem gosta está acostumado a assistir à trama diariamente. Com a estratégia de lançar blocos semanais, a novela pedia viradas fortes, típicas do folhetim clássico. Mas isso raramente acontece. Fora da maratona, a história se dilui, e o espectador precisa se reconectar a cada novo pacote de episódios.
Ainda assim, há muitos mais acertos que erros; principalmente no elenco. Grazi Massafera entrega, com segurança e presença, o melhor papel de sua carreira. Sua Beja é magnética e sustenta a novela mesmo quando o texto falha. Débora Evelyn também merece destaque com sua Ceci Sampaio amarga e precisa, enquanto Indira Nascimento constrói a grande vilã da história: uma Maria complexa, cheia de nuances e longe do estereótipo.
Outro nome que se impõe é Pedro Savanaro, que dá vida à Severina, uma personagem que vai além da trama. Retratada como uma mulher trans no Brasil Imperial, Severina surge como leal escudeira, amiga e sócia de Beja em Araxá, trazendo uma camada importante de representatividade LGBTQIA+ e evocando, ainda que em tom ficcional, uma discussão sobre resistência histórica em um período em que essas narrativas costumam ser apagadas.
Também merece menção Kelzy Ecard, que se consolida como um dos grandes destaques com sua Augusta, além de Tuca Andrada, firme no papel do coronel Felizardo.
Se há elogios, também há desperdícios difíceis de ignorar. Isabela Garcia e Bianca Bin aparecem pouco e sem relevância proporcional ao peso de seus nomes. No caso de Bianca, vendida como antagonista, o problema é ainda mais evidente: Angélica não se sustenta como força dramática. Fica a sensação de promessa não cumprida — e os conflitos de bastidores com o diretor Hugo de Souza ajudam a explicar esse esvaziamento. Já Isabela Garcia merecia uma Genoveva com mais densidade e função na trama.
No fim, “Dona Beja” é uma novela que evidencia como decisões fora de cena impactam diretamente o que chega ao público. Mas há elenco e história. E, em novela, isso faz toda a diferença.

