Quando Xamã foi escalado para viver o jagunço Damião em “Renascer”, muita gente ainda o via apenas como um rapper carismático fazendo uma incursão pontual na dramaturgia. A estreia foi segura, dentro de um arquétipo que dialogava com sua imagem: o homem de poucas palavras, olhar duro, energia contida. Funcionou.
Depois, na série da Netflix “Os Donos do Jogo”, ele mergulhou num bicheiro cruel, frio, daqueles que falam baixo e ameaçam alto. Ali já ficou claro que não era só presença de cena. Havia domínio de ritmo, entendimento de câmera e uma construção corporal muito própria — ombros tensos, queixo projetado, uma cadência quase musical na fala, carregada de gírias e de uma malandragem urbana que ele conhece como poucos.
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Agora, em “Três Graças”, como o traficante Bagdá, Xamã retorna ao território que o público já associa a ele: o bandido carioca, líder, intimidador, dono da palavra final. E, sejamos justos, ele faz isso muito bem. Há verdade, convicção e não soa nada forçado.
Mas os últimos capítulos da novela trouxeram algo mais interessante do que a reafirmação de um tipo: trouxeram fissuras.
A morte do pai de Jorginho (Juliano Cazarré) mexe com Bagdá de um jeito inesperado. O chefe do tráfico, até então calculista e impiedoso, deixa escapar silêncios mais longos, um olhar perdido, uma hesitação que não combina com quem sempre esteve no controle. É nesse momento que Xamã começa a expandir o próprio repertório diante dos nossos olhos.
Ele suaviza a voz, desarma o corpo e tira a agressividade automática da postura. O que antes era ameaça vira conflito interno e o público percebe.
A questão é: nós já sabemos que Xamã domina o arquétipo do “bandido de gíria afiada”. Ele tem ritmo, tem presença, tem credibilidade. O que começa a ficar claro, porém, é que ele também tem alcance. Essas cenas recentes mostram que existe ali um ator interessado em explorar fragilidade, contradição, humanidade. E isso é muito mais desafiador do que repetir o tipo que já deu certo.
Talvez esteja na hora de os produtores de elenco olharem para ele além da superfície óbvia. Um personagem romântico? Um anti-herói sofisticado? Um protagonista em conflito moral que não passe necessariamente pelo crime? Há um campo vasto a ser explorado.
Porque, se o público já reconhece que Xamã sabe ser temido, começa agora a descobrir que ele também pode ser complexo. E complexidade, na TV, é o que faz um ator deixar de ser aposta para virar escolha.

