A ideia de que a Seleção Brasileira cresce no caos, de que “quanto pior, melhor”, tem sido usada com um mantra repetido para dar esperança de que nunca estivemos tão perto do hexa quanto agora. Mas um olhar mais atento à história recente das conquistas mostra um padrão diferente: o Brasil campeão nunca esteve tão desorganizado, instável e sem identidade quanto o atual ciclo.
ASSISTA O ATUALIZA JÁ ESPORTE DE HOJE (27/03)
Esse novo ciclo da Seleção já não pode mais ser tratado como oscilação pontual. Trata-se de um ciclo marcado por rupturas constantes, desempenho irregular e ausência de referências técnicas e emocionais dentro de campo.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Reprodução Jogadores brasileiros homenagearam o piloto após a conquista do Mundial de 1994.Reprodução/FIFA World Cup Ronaldo Fenômeno foi o destaque do Brasil na Copa do Mundo de 2002.Reprodução/@ronaldo Adriano era integrante do “quadrado mágico” na Copa de 2006, que contava com ele, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, e Ronaldo FenômenoReprodução Reprodução Seleção Brasileira segue preparação para amistoso contra a França / Rafael Ribeiro – CBF Seleção Brasileira segue preparação para amistoso contra a França / Rafael Ribeiro – CBF
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Crise, sim. Colapso, não
Em 2002, último título mundial do Brasil, o cenário pré-Copa foi turbulento, mas não caótico. A saída de Vanderlei Luxemburgo aconteceu em meio a desgaste interno e resultados abaixo da expectativa, mesmo após a conquista da Copa América de 1999 e com a Seleção ainda figurando entre as principais forças do continente.
Luiz Felipe Scolari assumiu sob pressão, especialmente pelas dificuldades nas Eliminatórias, mas encontrou uma base consolidada. Nomes como Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo e Ronaldo já formavam a espinha dorsal do time. O que houve ali foi ajuste, não reconstrução. O Brasil chegou desacreditado, mas com identidade clara e hierarquia técnica definida.
Oscilação não é desorganização
Nos ciclos anteriores aos títulos de 1994 e 2002, o Brasil enfrentou críticas, mudanças e momentos de instabilidade, mas manteve elementos fundamentais: continuidade de trabalho, base de elenco e protagonismo técnico.
Mesmo nas derrotas marcantes — como 1998 e 2006 —, a Seleção tinha um desenho de jogo reconhecível e jogadores capazes de assumir o protagonismo em momentos decisivos. A crise existia, mas dentro de um sistema funcional.
O ciclo atual e a coleção de rupturas
O cenário recente rompe esse padrão histórico. Desde a Copa do Mundo de 2022, o Brasil acumula marcas negativas que não encontram paralelo em ciclos anteriores. A equipe registrou sua pior campanha nas Eliminatórias no formato atual, sofreu derrotas inéditas (como a primeira para a Argentina em casa) e estabeleceu sequências históricas negativas, incluindo três derrotas consecutivas.
O ano de 2023 terminou com o pior aproveitamento desde 1940, além de derrotas inéditas para seleções africanas fora do continente americano. A eliminação nas quartas de final da Copa América de 2024 reforçou a instabilidade esportiva.
Mais do que resultados, o período é marcado por ausência de continuidade, tendo múltiplas trocas de comando técnico, falta de padrão tático e constante reformulação de elenco.
O reflexo em campo: talento sem protagonismo
A atuação contra a França sintetiza esse cenário. Vinícius Júnior, um dos principais jogadores do futebol mundial, voltou a apresentar desempenho distante do que entrega em nível de clube. Sem impacto nos duelos individuais e pouco participativo nas ações ofensivas, não assumiu o protagonismo esperado.
Raphinha seguiu a mesma linha: começou participativo, mas perdeu influência ao longo do jogo e não foi decisivo antes de sair por indício de lesão.
Referência que não está em campo
A ausência de Neymar ajuda a explicar parte do vazio criativo e emocional da equipe. Historicamente, o jogador assumiu a responsabilidade técnica e simbólica da Seleção, algo que o atual elenco ainda não conseguiu redistribuir coletivamente. Sem essa referência, o Brasil se mostra um time que circula a bola, ocupa espaços, mas não define, não decide e não impõe.
Estrutura que amplia o problema
Sob o comando de Carlo Ancelotti, o modelo com quatro atacantes e apenas dois meio-campistas evidenciou fragilidades estruturais. A equipe perdeu controle do setor central, ficou exposta defensivamente e teve dificuldade na construção. A consequência é um time partido, que não sustenta pressão ofensiva e oferece espaços em transição.
Entre o passado e o presente
A comparação histórica desmonta o mito. O Brasil que venceu em 2002 convivia com pressão, mas tinha base, identidade e protagonistas. O Brasil atual convive com incerteza, descontinuidade e ausência de liderança técnica dentro de campo. A diferença nem é mais o tamanho da crise, mas a natureza dela.
Mais do que fase, um problema estrutural
A narrativa do “quanto pior, melhor” pressupõe um fundo sólido que reage sob pressão. O que se vê hoje é diferente: um ciclo que ainda busca esse próprio fundo.
A Seleção não parece próxima de uma reação espontânea. Pelo contrário, segue em processo de construção, sem garantias de que o encaixe virá a tempo. E é justamente isso que distancia o presente de qualquer paralelo confortável com o passado campeão.

