A mais recente mudança no comando da Empresa Brasil de Comunicação, com a saída repentina de André Basbaum, provocou reação imediata nos bastidores. Em carta aberta, jornalistas da casa decidiram se posicionar diante do novo cenário, reforçando preocupações que já vêm se tornando recorrentes a cada troca de gestão.
O documento, assinado por mais de 100 profissionais concursados, pede que o próximo presidente da EBC tenha compromisso com os princípios da comunicação pública. Entre os pontos destacados estão o respeito ao pluralismo, à diversidade e ao fortalecimento do debate democrático, pilares que, segundo os signatários, não podem ser relativizados.
Há também uma cobrança clara por autonomia editorial e transparência na comunicação governamental. Na avaliação dos jornalistas, o futuro dirigente precisa reunir experiência na área e, principalmente, capacidade de diálogo com os trabalhadores e suas entidades representativas, algo que consideram essencial para o funcionamento da empresa.
A saída de Basbaum, que retornou para a Record após 8 meses no cargo, provocou essa movimentação. Nos corredores, a avaliação é que a repetição dessas mudanças acaba comprometendo a continuidade de projetos e o próprio papel institucional da empresa.
Evitando o confronto direto, a carta aberta deixa registrada o que os profissionais esperam daqui para frente. E, ao mesmo tempo, sinaliza que há um acompanhamento atento, e cada vez mais vocal, sobre os rumos da comunicação pública no país.
Veja a nota na íntegra:
Carta aberta de jornalistas da EBC sobre mais uma troca no comando da empresa pública
Nós, jornalistas da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), abaixo assinados, manifestamos nossa preocupação com as constantes mudanças na gestão da Empresa, que fragilizam a efetividade das políticas para reconstrução da comunicação pública brasileira. Em pouco mais de três anos, tivemos quatro diferentes diretores-presidentes nomeados pelo governo Lula, com o último ficando apenas sete meses no cargo.
Diante desse cenário, apelamos para que o governo federal e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República avaliem com inteligência e cuidado, ouvindo os trabalhadores da empresa, o próximo escolhido a liderar a companhia. Avaliamos que é fundamental que o perfil do novo diretor-presidente esteja alinhado com a missão constitucional da EBC, garantindo a autonomia no desempenho de suas funções e o compromisso com a missão da empresa.
Aproveitamos o atual momento, em que estão sendo especulados nomes para o cargo de presidente da EBC, para apresentar alguns requisitos que consideramos relevantes para a pessoa a ser indicada como gestora da Empresa.
É preciso compromisso com o pluralismo, a diversidade, a inclusão e com o fortalecimento do debate democrático. A comunicação pública tem o dever de ampliar as vozes dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil, garantindo autonomia editorial em relação ao governo.
Para tanto, é preciso que a programação das emissoras públicas seja voltada à defesa da infância, do meio ambiente, dos trabalhadores, dos direitos humanos e ao combate a todos os tipos de preconceito – racial, de gênero ou contra a população LGBTQIA+, por exemplo. Além disso, destaca-se a necessidade de defesa da democracia, tão abalada por tentativas de golpe de Estado e ataques às instituições.
No caso da comunicação governamental, braço também relevante da EBC e da democracia, vivemos o desafio de apresentar, aos cidadãos brasileiros, de forma transparente, os programas de políticas públicas do governo federal, como forma de acesso à informação e prestação de contas.
Nossos profissionais carregam a experiência de décadas de atuação na comunicação pública, mesmo frente à redução de mais de 30% do quadro efetivo da Empresa nos últimos 10 anos.
Além disso, em um cenário como o atual, repleto de desinformação, narrativas e vieses algorítmicos, a EBC é, sem dúvida, estratégica para promover a educação midiática da população brasileira, com informação responsável que conecta todas as regiões e culturas do país. Ao contrário do mercado e dos veículos privados, enxergamos nosso público como cidadãos – e não como consumidores.
Defendemos que neste momento a Empresa continue a ser presidida por uma ou um jornalista. Foi grande a diferença do compromisso em informar a população entre presidentes da área do jornalismo e os de outra formação. O ex-presidente André Basbaum vinha investindo no setor após anos de descaso, sendo fundamental priorizar o jornalismo para enfrentar o complexo cenário de desinformação que vivemos.
O perfil para um novo presidente ainda demanda compromisso inequívoco com a ética, a imparcialidade, o pluralismo e a qualidade da informação, bem como visão clara da distinção entre comunicação pública, orientada pelo interesse público, e comunicação governamental, de caráter institucional.
Espera-se capacidade de liderar a Empresa em contextos de polarização política, conduzir processos de reconstrução institucional e enfrentar a desinformação. É preciso saber dialogar e construir relações respeitosas com as entidades representativas do corpo funcional e da sociedade. É fundamental que se evitem perfis hostis aos trabalhadores e às trabalhadoras da EBC, como muitas vezes tem sido observado.
Vale lembrar que os próximos meses serão repletos de desafios de gestão, que vão da definição de um plano robusto para cobertura das eleições até as negociações trabalhistas para atualização do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT).
Também são requisitos a habilidade de articulação com os Três Poderes da República, com a sociedade civil e com os integrantes da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), visando sua expansão e fortalecimento.
Ademais, é fundamental que tenha compromisso com a diversidade regional, cultural e social na programação; que dê atenção às inovações tecnológicas; e que mantenha diálogo aberto e permanente com os trabalhadores da EBC e suas entidades representativas.
Por fim, reconhecemos os avanços ocorridos durante a gestão do ex-presidente André Basbaum. Ainda que tenhamos críticas sobre determinadas ações – incluindo a contratação de José Luiz Datena, que não representa o histórico de proteção de direitos humanos, princípio previsto na lei da EBC –, a gestão de André Basbaum conseguiu um feito notável ao implementar o novo Plano de Cargos e Salários (PCS), demanda de mais de 10 anos dos trabalhadores e trabalhadoras da EBC.
Soma-se a isso o fato de a experiência de André Basbaum, ao longo de décadas no jornalismo, dar a ele conhecimentos essenciais sobre o funcionamento de uma empresa de comunicação – o que não é possível em perfis profissionais alheios à nossa atividade-fim. Também foi um fator positivo o trânsito nos meios midiático e político.
Em resumo, os e as profissionais abaixo-assinados/as esperam que o governo enfim encare a EBC com a importância e seriedade devidas, nomeando, em seu cargo máximo, um gestor ou gestora disposto/a a criar um sólido projeto de comunicação verdadeiramente pública, com um novo olhar para nossas potencialidades e integrando os funcionários efetivos da Empresa nesse desafio.
Quinta-feira, 9 de abril de 2026.
Assinam:
Akemi Nitahara
Ângela Andrade
Alex Rodrigues
Alessandra Lago
Aline Barbosa
Aline Leal
Amâncio Ronqui
Ana Passos
Andreia Verdélio
Anna Karina de Carvalho
Antonio Trindade
Beatriz Arcoverde
Bia Paiva
Bruna Saniele
Carolina Pavanelli
Carol Barreto
Cezar Faccioli
Clarice Basso
Claudio E. A. da Matta
Cris Oliveira
Daniel Ito
Daniel Lima
Daniella Almeida
Daniella Ribeiro Longuinho
Denise Griesinger
Dylan Araujo
Élida Albuquerque
Eliane Gonçalves
Érica Santana
Eusébio Gomes
Fabíola Sinimbú
Felipe Pontes
Fernando Frazão
Flávia Grossi
Flávia Peixoto
Gabriel Corrêa
Gabriela Noronha
Geylson Antonio de Sousa Paiva
Gésio Passos
Gilberto Costa
Gilson Machado
Giselly Glads
Glauco de Queiroz
Guilherme Jeronymo
Guilherme Strozi
Gustavo Pereira Gomes
Isabela Vieira
Iuri Guerrero
Ivan Richard
Joana Côrtes
Jonas Valente
Juliana Andrade
Juliana Maya
Kátia de Paiva Gomes
Lana Cristina do Carmo
Larissa Antonielle
Leandro Martins
Leyberson Pedrosa
Ligia Souto
Lucas Krauss
Lucas Pordeus León
Luana Karen
Luciana Vinha do Valle
Luciano Nascimento
Luís Cláudio Ferreira
Luiz Fernando Fraga
Luísa Caetano
Madson Euler
Maíra Heinen
Manuela Castro
Marcelo Brandão
Marcelo Camargo
Marcelo Padovan
Marcio de Andrade
Márcio Garoni
Mariana Tokarnia
Mariana Vitarelli
Mirna Ledo
Monica Maia
Nanna Pôssa
Nathália Mendes
Patrícia Serrão
Paula Laboissiere
Paulo La Salvia
Pedro Lacerda
Pedro Peduzzi
Pedro Rafael Vilela
Pedro Rezende Ballalai
Pollyane Marques
Priscila Mendes
Priscila Thereso
Priscilla Mazenotti
Raíssa Lopes
Raíssa Saraiva
Rafael Cardoso
Rafael Guimarães
Ramon Gusmão
Raquel Júnia
Renato Ribeiro
Roberta Lopes
Rodrigo Ricardo
Rogério Verçoza
Sabrina Craide
Sandro Tebaldi
Sayonara Moreno
Sueli de Freitas
Sumaia Villela
Tatiana Alves
Tâmara Freire
Talita Cavalcanti
Tânia Rego
Thais de Luna
Tomaz Silva
Valter Campanato
Vitor Abdala
Vitor Teodoro
Vladimir Platonow
Wellton Máximo

