Hoje acompanhei um debate transmitido pelo ContilNet entre João Paulo Bittar e Virgílio Viana, dois jovens ligados a famílias tradicionais da política acreana. Um filho do senador Marcio Bittar. O outro, filho do ex-governador Tião Viana e sobrinho do ex-governador Jorge Viana.
Enquanto assistia ao debate, uma reflexão ficou muito forte na minha cabeça: será que a política das famílias é realmente um problema? Ou o problema está na forma como algumas pessoas usam o poder?
Antes de qualquer interpretação equivocada, quero deixar algo claro: este texto não é um ataque a ninguém. Pelo contrário. O debate me chamou atenção justamente pelo nível da conversa e pela preparação dos dois participantes.
Os dois demonstraram conhecimento político, argumentação, domínio de temas nacionais e posicionamentos ideológicos bem definidos. Isso precisa ser reconhecido.
Vivemos em uma época em que muitas pessoas tratam a política apenas como guerra, torcida organizada ou espaço de ódio. Mas política também é debate de ideias. É preparação. É capacidade de diálogo. E nisso, sinceramente, os dois mostraram preparo.
O Acre sempre teve famílias tradicionais na política. Isso não começou agora. Há décadas existem grupos políticos que constroem lideranças dentro das próprias famílias. E isso acontece não apenas no Acre, mas no Brasil inteiro.
Filhos de prefeitos.
Filhos de governadores.
Filhos de vereadores.
Filhos de deputados.
Alguns acabam entrando na política naturalmente porque cresceram dentro desse ambiente. Aprenderam desde cedo sobre eleições, campanhas, articulações e gestão pública.
O problema não é nascer em família política.
O verdadeiro problema começa quando alguém acredita que sobrenome deve valer mais do que competência.
E sendo sincero: existem filhos de políticos extremamente preparados e existem também pessoas sem tradição política nenhuma que chegam totalmente despreparadas ao poder.
A discussão precisa ser mais madura.
Muita gente usa o termo “nepobaby da política” de forma automática, como se todo filho de político fosse incapaz. E isso nem sempre é verdade.
O próprio debate mostrou isso.
João Paulo e Virgílio possuem visões diferentes sobre economia, costumes, religião e políticas sociais, mas os dois demonstraram estudo, posicionamento e preparo para o debate público.
Isso é importante para a democracia.
O que não pode acontecer é a política virar um ambiente fechado, onde apenas famílias tradicionais tenham oportunidade enquanto novas lideranças ficam sem espaço para crescer.
Esse talvez seja o maior desafio da política brasileira hoje: abrir espaço para renovação sem transformar experiência em inimiga.
Porque a verdade é que o povo também se cansa quando vê sempre os mesmos grupos controlando tudo.
Ao mesmo tempo, não podemos cair no erro de achar que qualquer pessoa nova automaticamente será melhor apenas porque não possui sobrenome político.
Política não pode ser baseada apenas em marketing, emoção ou redes sociais. Precisa existir preparo.
E uma coisa que o debate deixou muito clara foi isso: os dois estavam preparados.
Talvez o mais interessante do debate tenha sido perceber que, mesmo sendo herdeiros de grupos historicamente rivais, conseguiram sentar, conversar e defender ideias sem transformar tudo em baixaria.
Isso faz falta na política atual.
Hoje as redes sociais incentivam mais o ataque do que o diálogo. Muitos políticos cresceram apenas através da agressividade, do corte viral e do conflito permanente.
Mas democracia de verdade exige debate.
E o Acre precisa cada vez mais disso:
Mais debate.
Mais ideias.
Mais preparo.
Mais construção política.
Outra reflexão importante é que muitos jovens da atual geração estão começando a se interessar novamente pela política. E isso é positivo.
A juventude precisa ocupar espaços.
Precisa discutir futuro.
Precisa entender economia, direitos sociais, educação, inclusão e democracia.
Não podemos entregar o futuro apenas para quem já está no poder há décadas.
Também acredito que a política precisa criar espaço tanto para filhos de lideranças quanto para pessoas simples que vêm da periferia, do interior, das comunidades rurais e das famílias humildes.
Porque talento existe em todo lugar.
Muitas vezes o que falta não é capacidade.
É oportunidade.
E talvez seja exatamente aí que a democracia precisa evoluir.
No fim das contas, o mais importante não é o sobrenome que alguém carrega.
O mais importante é:
O caráter
A preparação
O compromisso com as pessoas
A capacidade de ouvir
E a responsabilidade de entender que política muda vidas
O Acre precisa formar novas lideranças.
Precisa preparar jovens.
Precisa incentivar o debate político saudável.
E sinceramente, vendo o debate de hoje, tive a sensação de que a nova geração política acreana talvez esteja começando a entender isso.
Tomara que sim.
Porque o futuro da política não pode ser construído apenas com herança.
Mas também não pode ser construído sem preparo.
Por: Samoel Andrade

