Depois de quase duas décadas longe dos cinemas, “Todo Mundo em Pânico” retorna sem qualquer pretensão de reinventar a roda. Na verdade, faz justamente o contrário: abraça o costumeiro humor ofensivo, as piadas sem filtro e a falta de compromisso com uma narrativa, características que transformaram a franquia em um fenômeno dos anos 2000.
O sexto filme entende exatamente o que o público espera dele. Não há grandes reflexões, uma trama elaborada ou preocupações em construir uma história sólida. O objetivo é simples: reunir o maior número possível de referências da cultura pop contemporânea e transformá-las em piadas absurdas. Aliás, para os “cronicamente on-line” de plantão, o longa é um prato cheio para boas risadas.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Pôster de “Todo Mundo em Pânico 6″Divulgação: Miramax Cena de “Todo Mundo em Pânico 6″Divulgação: Miramax Cena de “Todo Mundo em Pânico 6″Divulgação: Miramax Cena de “Todo Mundo em Pânico 6″Divulgação: Miramax Cena de “Todo Mundo em Pânico 6″Reprodução: Paramount
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Dessa vez, os alvos vão desde fenômenos recentes do terror, como “Sorria”, “Terrifier” e “A Substância”, até sucessos da televisão e da música, sobrando até para a animação “Guerreiras do K-Pop” e para a biografia recentemente lançada de Michael Jackson. Uma das sequências mais divertidas envolve Cindy relembrando uma visita ao shopping com a filha para encontrar o Papai Noel, apenas para descobrir uma versão macabra inspirada em “Terrifier”, distribuindo pedaços de corpos como presentes. Já uma das melhores sacadas do longa recria a famosa cena da xícara de chá de “Corra!”, do premiado Jordan Peele, mas coloca Ghostface e Shorty no centro da situação.
O roteiro também aproveita tendências atuais que dificilmente existiriam quando a franquia surgiu. Há piadas envolvendo ChatGPT, Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), militância política, transexualidade, o caso Epstein e as acusações contra P. Diddy. Como sempre aconteceu na franquia, ninguém parece estar protegido dos alvos do humor sarcástico.
O racismo, tema recorrente em “Todo Mundo em Pânico”, criado pelos irmãos Wayans, também ganha espaço. Entre os momentos mais afiados está uma cena em que Brenda faz piada com a nova namorada branca do filho e sugere seguir os passos da personagem de Octavia Spencer em “Histórias Cruzadas”, oferecendo a famosa “torta especial” que marcou o filme.
Mas o maior presente para os fãs antigos talvez esteja na nostalgia. O clássico “Wazzup!”, uma das cenas mais icônicas do primeiro filme, retorna adaptado para os tempos atuais. Em vez de uma ligação telefônica, os personagens interagem durante uma transmissão ao vivo com fãs, atualizando uma das piadas mais lembradas da franquia.
O longa também revisita a morte de Brenda, sequência também famosa da série original. Agora, quem ocupa o centro da cena é sua filha, Dei, em uma manifestação dentro do metrô carregando um cartaz que pede que as pessoas não parem de ler livros; exceto os de Harry Potter. A provocação é clara, envolvendo as polêmicas declarações de J.K. Rowling consideradas transfóbicas por parte do público.
Outra decisão inteligente é brincar com o próprio legado dos atores da franquia. O filme faz piadas sobre o envelhecimento do elenco original, suas carreiras ao longo dos anos e até mesmo sobre o fato de alguns deles jamais terem conseguido se desvincular completamente dos personagens que interpretaram.
O terceiro ato entrega exatamente o que se espera de um filme da série: uma sucessão de revelações e explicações cada vez mais absurdas sobre a identidade do Ghostface. A trama tenta amarrar o destino dos personagens clássicos e dos filhos da nova geração, mas a verdade é que ninguém está realmente assistindo “Todo Mundo em Pânico” pela lógica do roteiro. E talvez seja justamente aí que mora sua força.
O novo filme entende que o público não está procurando uma obra-prima da comédia. Está procurando um besteirol sem vergonha de ser besteirol. Em tempos de politicamente correto, há quem sinta saudade da época em que não havia espaço para ter medo de falar o que pensava… E nem precisar se envolver em um belo de um processo judicial. Um filme construído a partir de esquetes, referências aleatórias, humor nonsense e situações tão absurdas que desafiam qualquer tentativa de análise séria.

