Muita gente já comentou o episódio envolvendo Virginia Fonseca, no Maracanã, mas vale registrar uma reflexão que vai além da influenciadora e toca em algo cada vez mais presente na sociedade: a normalização da crueldade coletiva.
No último domingo (31/5), Virginia não foi apenas vaiada. Ela se tornou alvo de um coro formado por cerca de 70 mil pessoas. Um estádio inteiro gritando ofensas contra uma única pessoa. Independentemente da opinião que cada um tenha sobre ela, a cena é difícil de assistir sem algum desconforto.
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E aqui é importante deixar uma coisa clara: não se trata de defender Virginia. Eu mesma discordo de várias atitudes dela e acredito que algumas escolhas profissionais merecem, sim, debate público. O problema é quando a crítica deixa de ser crítica e se transforma em humilhação pública.
Nos últimos meses, parece ter virado moda atacar Virginia. E essa talvez seja a parte mais preocupante da história. Porque muitos dos que participam desse movimento sequer conseguem explicar exatamente a origem de tanta raiva. Repetem discursos, embarcam na onda do momento e transformam o ataque em entretenimento.
O argumento mais utilizado é a divulgação de plataformas de apostas. É uma discussão legítima. Mas também é impossível ignorar que diversas personalidades masculinas fazem exatamente o mesmo tipo de publicidade. Jogadores de futebol, atores e influenciadores homens participam de campanhas semelhantes sem enfrentar, nem de longe, o mesmo nível de hostilidade.
É difícil não perceber uma diferença de tratamento. Isso se chama machismo.
Quando uma mulher se torna alvo, a crítica frequentemente ganha contornos emocionais, agressivos e até pessoais. Não basta discordar. É preciso ridicularizar, humilhar, debochar. E o mais triste é perceber mulheres participando desse processo com entusiasmo, como se a destruição pública de outra mulher fosse motivo de celebração.
A crítica é necessária. A cobrança também. Figuras públicas devem responder pelos impactos de suas escolhas. Mas existe uma enorme distância entre responsabilização e linchamento.
O que aconteceu no Maracanã não foi apenas uma manifestação de reprovação. Foi a demonstração de como a internet e a vida real passaram a funcionar sob a mesma lógica: a de que algumas pessoas podem ser transformadas em alvos permanentes da indignação coletiva.
Hoje foi Virginia. Amanhã será outra pessoa. Outra mulher, provavelmente.
E, quando o ódio vira espetáculo, ninguém realmente sai ganhando.

