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“Meu sonho era estudar”: menina de 10 anos entra pela primeira vez em sala de aula na Reserva Chico Mendes, no Acre

Keulyane. Foto: Rio Branco Filmes.

Aos 10 anos, Keulyane Vasques de Carvalho viveu um momento que por muito tempo parecia distante: entrou pela primeira vez em uma sala de aula. Com o material escolar nas mãos e o sonho de aprender a ler e escrever, a menina participou do início das aulas na comunidade Buenos Aires, no Seringal Remanso, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre.

A abertura da escola marcou uma conquista histórica para os moradores da região, que ficaram 21 anos sem oferta regular de ensino. O espaço começou a funcionar nesta segunda-feira (6) atendendo 15 crianças em turmas multisseriadas, além da previsão de atender jovens e adultos que também não tiveram oportunidade de estudar.

A comunidade fica a cerca de 74 quilômetros de Rio Branco, mas o isolamento torna o acesso um dos principais desafios para os moradores. Durante o inverno amazônico, as condições dos ramais podem deixar famílias por até 180 dias enfrentando grandes dificuldades para chegar à capital.

Keulyane. Foto: Rio Branco Filmes.

A mudança começou há dois meses, após uma força-tarefa liderada pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) visitar a comunidade para ouvir as demandas dos moradores. A equipe enfrentou mais de dez horas de viagem, lama, atoleiros e trechos percorridos a pé até chegar ao local.

Na ocasião, as famílias relataram a falta de serviços básicos, como educação, saúde, energia e melhores condições de acesso. Após a visita, diferentes instituições públicas passaram a atuar de forma integrada para buscar soluções para antigos problemas da comunidade.

O líder comunitário Odair José, que há anos procurava apoio para reativar a escola, se emocionou ao acompanhar o primeiro dia de aula.

Odair José – líder da Comunidade. Foto: Rio Branco Filmes.

“Hoje estamos vendo nossos filhos estudando. É uma alegria inexplicável, porque sabemos que eles são o futuro”, afirmou.

A professora Clenilce Pontes destacou que a escola representa uma nova oportunidade para crianças e adolescentes que nunca haviam frequentado uma sala de aula.

Professora Clenilce Pontes. Foto: Rio Branco Filmes.

“Temos crianças de 12 e 13 anos que estão pisando pela primeira vez em uma sala de aula. É um trabalho que exige muito cuidado, porque estamos em uma comunidade praticamente isolada”, explicou.

Para garantir o funcionamento das atividades, as professoras Clenilce e Rosana deixaram suas casas em Rio Branco e permanecerão durante todo o mês na comunidade, retornando à cidade apenas uma vez por mês.

O desafio também envolve as famílias. A moradora Sheila Maciel, mãe de uma aluna de 9 anos, precisa percorrer cerca de uma hora a cavalo para levar a filha até a escola e decidiu acompanhar a criança diariamente por causa dos riscos do caminho pela mata.

Além da educação, a mobilização prevê ações em outras áreas, como saúde e melhorias no acesso à comunidade. Para representantes das instituições envolvidas, a chegada da escola é apenas o primeiro passo para garantir que os serviços públicos alcancem moradores de áreas isoladas.

Para Keulyane e as demais crianças da Reserva Extrativista Chico Mendes, o dia 6 de julho de 2026 ficará marcado como a data em que uma espera de 21 anos chegou ao fim: o dia em que a porta de uma escola finalmente se abriu.

Veja:

Fotos: Rio Branco Filmes.

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