Enquanto no Brasil a 3G Capital, dos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, tenta se desvencilhar das investigações sobre o rombo contábil da Americanas, um processo em Delaware, nos Estados Unidos, recolocou sob análise acusações de uso de informação privilegiada envolvendo a venda de ações da Kraft Heinz.
A Suprema Corte de Delaware decidiu reabrir, no ano passado, uma disputa iniciada por investidores da fabricante de alimentos. A ação foi proposta pela gestora austríaca Erste Asset Management, que busca responsabilizar antigos executivos, conselheiros e entidades ligadas à 3G Capital.
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Kraft Heinz, gigante norte-americana dos alimentos
Thomas Fuller/SOPA Images/LightRocket via Getty Images2 de 3Getty Images3 de 3
O empresário Jorge Paulo Lemann
Divulgação/Brazil Conference
Entre os réus estão Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e empresas vinculadas à 3G Capital.
A discussão gira em torno da venda de aproximadamente US$ 1,2 bilhão em ações da Kraft Heinz realizada pela 3G em agosto de 2018, meses antes de a companhia divulgar resultados decepcionantes e registrar baixas contábeis que provocaram uma forte queda no valor de suas ações. A gestora austríaca sustenta que a operação teria ocorrido com base em informações relevantes que ainda não eram públicas.
As acusações não são novas. A ação derivativa original foi ajuizada em 2019, mas acabou sendo rejeitada pela Justiça de Delaware em 2021. A decisão foi confirmada pela Suprema Corte estadual em 2022.
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do Metrópoles
O caso voltou à pauta, no entanto, depois que a Erste afirmou ter descoberto novas evidências relacionadas ao conselheiro John Cahill.
Segundo a gestora, a Kraft Heinz informou em documentos públicos que Cahill havia encerrado sua relação de consultoria com a empresa em julho de 2019, circunstância que foi considerada pela Justiça ao concluir que ele era independente da 3G Capital para analisar eventuais medidas contra os controladores.
Posteriormente, porém, vieram à tona documentos indicando que Cahill continuou prestando consultoria à companhia após essa data, apenas com uma forma diferente de remuneração: em vez de pagamentos em dinheiro, recebeu 500 mil opções de ações cujo exercício dependia da continuidade de sua atuação como consultor ou conselheiro.
A própria Kraft Heinz reconheceu, para fins do recurso, que as informações públicas sobre o encerramento da consultoria eram incorretas.
Ao reverter a decisão anterior, a Suprema Corte de Delaware entendeu que uma parte não pode fazer uma divulgação pública falsa, permitir que a outra parte se baseie nela para formular suas alegações, repetir essa mesma informação durante o processo e, depois de obter uma decisão favorável, sustentar que a divulgação estava fora do contexto judicial.
A decisão não significa que os acionistas da 3G tenham sido considerados responsáveis pelas acusações. O julgamento determinou que a ação volte à primeira instância para nova análise à luz das evidências apresentadas.
Em documento divulgado aos investidores em maio deste ano, a Kraft Heinz informa que pretende contestar vigorosamente as alegações. A empresa afirma que, após a decisão da Suprema Corte, o processo foi reunificado com a ação derivativa original e segue em fase inicial, motivo pelo qual ainda não é possível estimar eventuais perdas financeiras decorrentes da disputa.
Enquanto isso, no Brasil, a 3G Capital foi surpreendida por outra frente judicial.
Em 25 de junho deste ano, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Disclosure para investigar possíveis irregularidades relacionadas ao rombo financeiro da Americanas. Entre os alvos estão Carlos Alberto Sicupira, acionista e ex-conselheiro da varejista, e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann. A operação resultou no bloqueio de mais de R$ 54 bilhões em bens.
Na ocasião, a LTS, holding de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, afirmou ter sido surpreendida pela operação. Em nota, o grupo reiterou que seus integrantes “foram enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da Americanas”.
A coluna tentou contato com a 3G Capital para se manifestar sobre a ação em Delaware.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Tácio Lorran.

