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A economia do medo (por Gaudêncio Torquato)

A economia do medo (por Gaudêncio Torquato)

O medo é uma das emoções mais antigas da humanidade. Foi ele que ensinou nossos ancestrais a fugir dos predadores, buscar abrigo e proteger a família. Como mecanismo de defesa, preserva a vida. O problema começa quando deixa de ser reação a um perigo concreto e passa a ser produzido, ampliado e administrado por governos, empresas, grupos políticos e plataformas digitais. Nesse momento, o medo transforma-se em mercadoria, instrumento de poder e fonte de lucro. Surge aquilo que podemos chamar de economia do medo.

Essa economia movimenta-se por meio de uma engrenagem simples: primeiro identifica uma ameaça; depois aumenta sua percepção; por fim, oferece proteção, segurança ou salvação. Quanto maior o sentimento de vulnerabilidade, maior a disposição das pessoas para comprar produtos, aceitar controles e apoiar líderes que prometem restaurar a ordem. Não se vende apenas uma mercadoria. Vende-se a sensação de que, sem ela, estaremos expostos ao perigo.

O fenômeno aparece em inúmeros setores. A insegurança urbana alimenta a procura por condomínios fechados, carros blindados, câmeras, alarmes, cercas elétricas, seguros e vigilância privada. O medo da doença estimula a aquisição de medicamentos, exames e tratamentos nem sempre necessários. O receio de envelhecer sustenta uma poderosa indústria de cosméticos, cirurgias e fórmulas de rejuvenescimento. A angústia diante do desemprego impulsiona cursos, consultorias e promessas de enriquecimento rápido. Até o medo de ficar socialmente para trás é explorado pelo consumo: compramos roupas, aparelhos e experiências não apenas pelo que representam, mas para evitar a impressão de fracasso ou exclusão.

As plataformas digitais aperfeiçoaram esse mecanismo. Seus algoritmos descobriram que conteúdos alarmantes, indignados ou ameaçadores capturam mais atenção do que mensagens serenas. O medo prolonga a permanência diante da tela, multiplica compartilhamentos e aumenta as receitas publicitárias. Uma notícia equilibrada informa; uma notícia apresentada como prenúncio de catástrofe mobiliza. A economia da atenção converteu-se, em grande medida, numa economia da ansiedade.

No Brasil, a economia do medo convive com outro fenômeno: o medo da própria economia. É o receio cotidiano de que o salário não chegue ao fim do mês, de que o preço da comida volte a disparar, de que a dívida do cartão se torne impagável, de que o emprego desapareça ou de que uma enfermidade destrua o orçamento familiar. Trata-se de um medo concreto, alojado na barriga, no bolso e na memória.

O brasileiro aprendeu, ao longo de sucessivas crises, a desconfiar da estabilidade. Inflação elevada, planos econômicos, congelamentos, desemprego, recessões e mudanças nas regras deixaram cicatrizes profundas. Mesmo quando os indicadores melhoram, permanece a lembrança de que tudo pode piorar novamente. Forma-se uma espécie de inflação psicológica: o índice oficial pode desacelerar, mas o consumidor continua sentindo o peso dos preços acumulados no supermercado, na farmácia, no aluguel, na energia e nos serviços.

Os números mostram essa aparente contradição. A taxa de desemprego caiu para 5,4% no segundo trimestre de 2026, segundo o IBGE, uma situação favorável no mercado de trabalho. O IPCA de julho foi de apenas 0,07%. Ainda assim, as expectativas de inflação para 2026 continuavam acima da meta, em torno de 5%, conforme o Banco Central. A percepção popular não acompanha automaticamente a melhora mensal dos índices, porque a inflação menor significa que os preços passam a subir mais devagar, e não que retornam ao patamar anterior.

O endividamento amplia essa insegurança. Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras possuíam dívidas a vencer, o maior percentual da série histórica da pesquisa da Confederação Nacional do Comércio. Quase 30% estavam com contas atrasadas e, entre as famílias que recebiam até três salários-mínimos, o endividamento chegava a 84,9%. Para uma parcela significativa da população, portanto, o futuro já chega comprometido por prestações, juros e contas acumuladas.

A dívida não produz apenas efeitos contábeis. Produz ansiedade, insônia, conflitos familiares e perda de autonomia. O trabalhador endividado teme adoecer, perder o emprego ou enfrentar qualquer despesa inesperada. Sua liberdade de escolha diminui. Em vez de planejar o futuro, ele administra urgências. O cartão de crédito, criado como instrumento de consumo, converte-se em mecanismo de sobrevivência; o empréstimo, em extensão do salário; e a renda mensal, em ponte precária entre dívidas antigas e novas necessidades.

Nas classes mais vulneráveis, o medo econômico possui força especial. Quem vive sem poupança, com renda instável e serviços públicos precários encontra-se a poucos passos da privação. Inflação, desemprego e redução de benefícios não são conceitos estatísticos: significam comida, remédio, transporte e moradia. É o medo da barriga vazia, do bolso sem dinheiro e da casa desprotegida. As classes médias também são atingidas pelo receio da decadência, da perda do plano de saúde, da dificuldade de pagar a escola dos filhos e da redução do patrimônio construído durante décadas.

No setor produtivo, o medo assume outra forma. Empresários receiam juros elevados, aumento de impostos, mudanças tributárias, retração do consumo, instabilidade cambial e insegurança jurídica. Diante da incerteza, adiam investimentos, contratações e projetos. O medo provoca cautela; a cautela reduz o investimento; a redução do investimento limita o crescimento. Forma-se um círculo no qual a expectativa negativa contribui para produzir o resultado temido.

Esse ambiente também é explorado pela política. Em períodos eleitorais, governistas e oposicionistas disputam a administração dos temores econômicos. De um lado, alerta-se que a mudança de governo poderá extinguir benefícios sociais, reduzir direitos e ameaçar conquistas. De outro, anuncia-se que a continuidade provocará crise fiscal, inflação, aumento de impostos e empobrecimento. O eleitor é colocado diante de duas catástrofes e convidado a escolher aquela que lhe parece menos assustadora.

Campanhas sabem que é mais fácil mobilizar alguém contra uma perda do que em favor de um projeto abstrato. A mensagem “você poderá perder o que possui” costuma ser emocionalmente mais poderosa do que a promessa “você poderá conquistar algo melhor”. O voto deixa de expressar esperança e transforma-se em mecanismo de defesa. Em lugar da escolha do futuro, temos a fuga do pior cenário.

Isso não significa que os perigos sejam imaginários. A inflação, o desequilíbrio fiscal, o endividamento, a desigualdade e a precariedade dos serviços públicos são problemas reais. A manipulação ocorre quando dados são retirados de contexto, possibilidades são apresentadas como certezas e dificuldades administráveis são convertidas em anúncios de colapso. Governos tendem a minimizar riscos; oposições, a maximizá-los. Entre o otimismo oficial e o catastrofismo eleitoral, o cidadão procura a verdade no preço do feijão, no valor da prestação e no saldo bancário.

A economia do medo prospera porque nossa mente reage mais intensamente à possibilidade de perder do que à oportunidade de ganhar. A ameaça provoca resposta imediata; a esperança exige confiança e tempo. Quando o medo domina, diminui a capacidade de examinar evidências, comparar alternativas e admitir dúvidas. A emoção comprime o campo da razão.

Combater essa economia não significa negar os perigos, mas devolvê-los à sua verdadeira dimensão. Exige informação de qualidade, transparência institucional, responsabilidade fiscal, políticas sociais eficientes e educação econômica. A imprensa deve alertar sem transformar todo indicador em espetáculo. Os governos precisam enfrentar as causas da insegurança, em vez de explorar seus efeitos. E o cidadão deve perguntar: a ameaça é real? Qual é sua dimensão? Quem ganha com minha ansiedade? Quem está tentando vender-me proteção?

Uma sociedade sem medo seria impossível — e talvez até imprudente. Mas uma sociedade governada pelo medo deixa de ser plenamente livre. A democracia necessita de cidadãos cautelosos, porém não aterrorizados; atentos, mas não paralisados; críticos, sem se tornarem reféns de fantasmas. Quando o medo se transforma em negócio e método de governo, o maior perigo já não é apenas aquilo que nos ameaça. É aquilo que, em nome da proteção, somos convencidos a comprar, aceitar ou abandonar.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Metrópoles.

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