@hugobarretophoto
Deve haver algo de inteligência política extremamente refinada, muito além do nosso tempo, no fato de Flávio Bolsonaro ter alardeado durante meses que seu vice seria uma mulher, para, na última hora, surpreender todo mundo com a escolha de um homem.
Há mulheres de sobra no país. Elas hoje são a maioria do eleitorado brasileiro. Entre elas, Flávio apanha feio de Lula, segundo a unanimidade das pesquisas de intenção de voto. Por outro lado, Lula é derrotado por ele entre os homens, parte dos quais prefere mulheres “do lar”.
É bem verdade que Flávio sondou algumas delas e foi rejeitado. Michelle Bolsonaro, sua madrasta, disse-lhe não. A ex-ministra da Agricultura do governo de seu pai, a senadora Tereza Cristina, até aceitou examinar o assunto, mas o PP, partido ao qual é filiada, vetou a indicação.
Priscila Costa (PL), vereadora de Fortaleza e aliada de Michelle, foi consultada por telefone na tarde de terça-feira (4) e, depois de algumas horas, aceitou o convite. Na manhã do dia seguinte, porém, Flávio anunciou o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como seu vice.
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do Metrópoles
Ninguém sabe se a opção por Gaspar resolverá o problema eleitoral que tanto angustiava Flávio; só mais adiante se saberá. Mas, a princípio, a decisão pode ter resolvido um problema do deputado Arthur Lira (PP), ex-presidente da Câmara e um dos caciques do Centrão.
Em Alagoas, Gaspar, Lira e Davi Davino Filho (Republicanos) disputavam a mesma vaga de senador — a outra vaga deverá ser ocupada por Renan Calheiros (MDB), candidato à reeleição apoiado por Lula. Com Gaspar fora do páreo, a situação de Lira melhora significativamente.
Segundo Valdemar Costa Neto, presidente do PL, a escolha de Gaspar para vice de Flávio já datava de seis meses, desde que o deputado se destacou na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do INSS ao acusar o governo Lula de corrupção.
Não foi assim. Costa Neto mente. Na noite de terça-feira, Gaspar havia confirmado sua candidatura ao Senado. O próprio Flávio, em mensagem enviada ao deputado, o parabenizou e desejou-lhe boa sorte. Horas mais tarde, no entanto, convocou-o para uma reunião urgente em Brasília, onde ocorreu o desfecho.
Mais uma vez, cabe a comparação: tal pai, tal filho. Em 2018, Jair Bolsonaro convidou Janaina Paschoal, professora de Direito da Universidade de São Paulo, para ser sua vice, e ela topou. Na madrugada do dia da convenção, contudo, ele a trocou pelo general Hamilton Mourão.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.

