Ícone do site YacoNews

Como herdeira perdeu R$ 37 milhões no golpe da falsa plataforma

Como herdeira perdeu R$ 37 milhões no golpe da falsa plataforma
Arte/Metrópoles

Herdeira de um patrimônio milionário, uma aposentada do Rio Grande do Sul viu seu espólio de R$ 37 milhões desaparecer da noite para o dia após ter caído em um golpe conhecido como pig butchering (abate de porcos, em tradução livre). A prática baseia-se em ganhar confiança da vítima até o momento oportuno para o “abate”. Estimativas oficiais apontam que um grupo, que tinha sede em São Paulo e em estados do Sul, possa ter feito mais de 140 possíveis vítimas e obtido um lucro bilionário.

Batizada de Criptoabate, a operação foi deflagrada pela Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Patrimoniais Eletrônicos, do Rio Grande do Sul, nessa quinta-feira (13/8), em três estados: São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A capital paulista concentra os principais alvos que gerem a falsa plataforma financeira.

Segundo as investigações, entre os principais alvos estão três donos de instituições financeiras que operam conversão de real para criptomoeda; dois estrangeiros — um deles é sócio das instituições financeiras — e a gerente de um banco tradicional no país que facilitava abertura de contas operadas pela quadrilha.

Em São Paulo, os investigadores gaúchos descobriram que, em 2025, uma única empresa localizada no centro financeiro da capital paulista movimentou R$ 500 milhões. A polícia apurou, ainda, que as transações realizadas pelos investigados durante a investigação totalizaram R$ 30 bilhões.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles SP

A Justiça decretou a prisão preventiva de oito pessoas e 10 ordens judiciais de busca e apreensão foram emitidas. Dois suspeitos foram presos e outros seis são considerados foragidos.

O começo

O delegado Eibert Moreira, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC) e um dos responsáveis por liderar a investigação, afirmou ao Metrópoles que o caso começou a ser apurado no início de 2025, após a aposentada procurar a polícia para denunciar que havia sido vítima de um golpe. Na ocasião, ela relatou ter sofrido um prejuízo de quase R$ 40 milhões. A denúncia acabou levando os investigadores à descoberta de centenas de outras vítimas em diferentes estados do país.

Em depoimento, a aposentada contou que decidiu reinvestir o dinheiro recebido de uma herança, que até então estava aplicado em uma corretora tradicional, e transferi-lo para a plataforma financeira indicada pelos criminosos. Os primeiros aportes, feitos em meados de 2024, foram de R$ 100 mil. Os valores aumentaram gradualmente para R$ 400 mil e R$ 500 mil, até chegarem a aportes milionários diários — em alguns casos, de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões em um único dia. As transferências continuaram até janeiro de 2025.

A aposentada decidiu denunciar o esquema depois de perceber uma queda repentina no valor das operações. Ao tentar resgatar parte do dinheiro, também não conseguiu concluir as transações.

Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, ela transferiu cerca de R$ 37 milhões para contas e plataformas indicadas pelos criminosos. O que inicialmente parecia uma oportunidade de investimento fazia parte, na realidade, de um esquema criminoso internacional. Nesse tipo de golpe, a vítima é gradualmente convencida da credibilidade da plataforma e estimulada a aumentar os aportes, até perder o acesso ao dinheiro.

Como o grupo operava

O grupo recebia transferências em reais e convertia valores em criptomoedas dentro do próprio sistema. A partir dali, o cliente recebia novas orientações sobre onde investir. Segundo as investigações, o esquema era sustentado por uma intensa comunicação no WhatsApp, com diversos canais destinados aos clientes — financeiro e comercial, para que a vítima fosse “bombardeada” de mensagens, notícias e supostos comprovantes e relatos de outros investidores sobre os lucros obtidos nas transações.

“O Departamento Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (Dercc) identificou que o golpe conhecido internacionalmente como pig butchering, que tem origem no sudeste asiático, como Laos, Camboja e Mianmar, passou a ser introduzido em território brasileiro. A operação tem como foco a alta estrutura do grupo criminoso”, disse o delegado Eibert Moreira.

“A ação faz parte da estratégia do departamento em desenvolver investigações voltadas à responsabilização de todos os integrantes das estruturas utilizadas para a prática de fraudes eletrônicas, desde o executor do estelionato que induz a vítima em erro, até os donos de instituições financeiras que facilitam e auxiliam a ocultação dos valores obtidos com o crime”, continuou.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Marcus Pontes.

Sair da versão mobile