A cidade espanhola de Ceuta, no norte da África, vive uma das maiores crises migratórias dos últimos anos. Na última semana, mais de 60 mil de pessoas tentaram entrar no território espanhol a partir do Marrocos, principalmente pelo mar.
Após 57 pessoas morrerem na região, a dimensão do movimento provocou uma emergência humanitária, mobilizou forças de segurança espanholas e marroquinas e voltou a colocar no centro das atenções a relação entre os dois países.
O episódio fez a Espanha reforçar a presença policial e militar em Ceuta. O governo de Pedro Sánchez classificou a entrada em massa como uma violação da soberania espanhola. A crise também provocou repercussões em outros países europeus, com a Itália anunciando controles temporários em viagens com a Espanha, e a França reforçando a fiscalização na fronteira.
O que ocorreu em Ceuta
- Ceuta é um território espanhol autônomo localizado no norte da África, cercado pelo Marrocos e separado da Península Ibérica pelo Estreito de Gibraltar.
- A localização faz da cidade um ponto estratégico: embora esteja na África, Ceuta integra o território espanhol e, consequentemente, a União Europeia.
- A região registrou uma forte onda migratória, com milhares de pessoas tentando entrar no território espanhol por terra e mar.
- Segundo as informações atualizadas, mais de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira durante a crise.
- O ministério do Interior da Espanha atualizou para 57 o número de pessoas que morreram.
- Mais de 37 mil imigrantes já retornaram a Marrocos.
- As autoridades espanholas afirmam que conseguiram controlar a situação.
O que provocou a atual onda migratória
A causa da atual crise não é atribuída a um único fator. Entre os elementos apontados estão dificuldades econômicas no Marrocos, desemprego entre jovens, expectativas de uma vida melhor na Europa e informações espalhadas pelas redes sociais.
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do Metrópoles
Relatos e vídeos publicados na internet ajudaram a criar a percepção entre parte dos migrantes de que seria mais fácil permanecer na Espanha após a entrada em Ceuta. A circulação de informações enganosas também teria explorado uma recente decisão judicial espanhola sobre a devolução de pessoas que chegam pelo mar.
Em 8 de julho, o Tribunal Supremo da Espanha decidiu que a chamada “devolução a quente” não poderia ser aplicada automaticamente a pessoas interceptadas no mar enquanto tentam chegar a Ceuta ou Melilla. Segundo a decisão, a rejeição imediata na fronteira se aplica a quem ultrapassa elementos físicos de contenção, como as cercas, mas não aos casos de pessoas interceptadas no mar.
A decisão não significa que qualquer pessoa que chegue nadando tenha autorização para permanecer na Espanha. O entendimento é que essas pessoas precisam passar pelos procedimentos legais previstos antes de eventual retorno.
A interpretação da decisão, espalhada pelas redes sociais, teria alimentado a percepção de que a entrada pelo mar poderia garantir a permanência no território espanhol. O governo espanhol e autoridades locais apontaram redes de tráfico e contrabando de pessoas como parte do problema.
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Cidade de Ceuta, pertence à Espanha, fica no norte da África
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Migração em massa: Espanha diz que 37 mil já retornaram a Marrocos
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Polícia espanhola usa bomba de gás para afastar imigrantes em Ceuta
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Por que milhares de marroquinos querem deixar o país?
A questão migratória também está relacionada às dificuldades socioeconômicas enfrentadas por parte da população marroquina.
O país apresenta uma economia em crescimento e vem investindo em grandes obras de infraestrutura, mas a distribuição dos benefícios é desigual. O desemprego e a falta de oportunidades para jovens continuam sendo fatores de pressão.
Nesse contexto, a proximidade geográfica com a Europa torna a Espanha um destino especialmente atraente. Em Ceuta, a distância entre a costa marroquina e o território espanhol pode ser percorrida a nado em determinados pontos, embora a travessia seja extremamente perigosa.
A atual crise, portanto, reúne também fatores econômicos, sociais, migratórios e políticos.
Crise semelhante em 2021
- O episódio atual remete à crise migratória de 2021, quando Ceuta enfrentou uma entrada massiva de migrantes.
- Em maio de 2021, cerca de 12 mil pessoas chegaram a Ceuta em apenas dois dias, segundo o Tribunal Supremo espanhol.
- Entre os migrantes, aproximadamente 1,5 mil eram menores de idade.
- A chegada em massa provocou uma grave crise diplomática entre Espanha e Marrocos, além da crise humanitária e migratória.
- Na época, as relações entre Madri e Rabat já estavam deterioradas, o que ajudou a ampliar a dimensão política do episódio.
- Um dos principais pontos de tensão era o Saara Ocidental, território reivindicado pelo Marrocos e disputado com a Frente Polisário.
- Diante desse contexto, setores espanhóis interpretaram a entrada de migrantes como uma possível forma de pressão de Rabat sobre Madri.
- Portanto, a crise de 2021 não foi vista apenas como um problema migratório, mas também como parte de uma disputa diplomática entre os dois países.
- O episódio de 2021 criou um precedente que aumenta a atenção sobre a atual onda migratória em Ceuta.
- Há suspeitas e acusações de que autoridades marroquinas possam ter sido tolerantes com a saída de migrantes em determinados momentos.
- Porém, não há confirmação de que o governo do Marrocos tenha organizado deliberadamente a atual entrada de migrantes como instrumento de pressão política.
O papel do Marrocos
O controle da fronteira de Ceuta depende em grande medida da cooperação entre Espanha e Marrocos. Ao longo dos últimos anos, os dois países ampliaram a colaboração para combater a imigração irregular e o tráfico de pessoas.
Dados oficiais espanhóis mostram, inclusive, que o fluxo migratório terrestre para Ceuta já vinha aumentando antes da crise atual. Até 15 de julho, 2.826 pessoas haviam chegado irregularmente por terra a Ceuta em 2026, alta de 150% em comparação com o mesmo período de 2025.
Isso ajuda a explicar por que a crise atual não surgiu completamente do nada. A região já registrava aumento da pressão migratória, que acabou se intensificando de forma extraordinária no fim de julho.
O problema é que qualquer falha na coordenação entre Rabat e Madri pode produzir efeitos imediatos. Se Marrocos aumenta o controle da fronteira, o número de chegadas tende a cair. Se a fiscalização diminui, mesmo temporariamente, a proximidade de Ceuta pode estimular novas tentativas de travessia.
Saara Ocidental
Por trás da relação entre Espanha e Marrocos existe ainda uma disputa territorial que influencia a política externa dos dois países.
O Saara Ocidental é reivindicado pelo Marrocos, mas a Frente Polisário defende a independência do território. A posição espanhola sobre a questão passou por uma mudança importante nos últimos anos, quando o governo de Pedro Sánchez passou a apoiar o plano de autonomia apresentado pelo Marrocos como solução para o conflito.
A mudança ajudou a reconstruir a relação entre Madri e Rabat depois da crise de 2021, mas também provocou críticas internas na Espanha e irritou a Argélia, rival regional do Marrocos.
Por isso, Ceuta está inserida em uma rede muito maior de interesses no norte da África. A cidade é simultaneamente uma fronteira europeia, um território reivindicado pelo Marrocos e um ponto de pressão nas relações entre os dois países.
Uma nova crise diplomática?
A principal dúvida agora é se a crise migratória permanecerá restrita à questão humanitária ou se poderá provocar uma nova deterioração das relações entre Espanha e Marrocos.
Até o momento, os dois países têm interesse em evitar uma ruptura. A Espanha depende da cooperação marroquina para controlar os fluxos migratórios, enquanto o Marrocos também tem interesses econômicos e diplomáticos na manutenção de uma relação estável com a União Europeia.
O próprio funcionamento da fronteira mostra o grau de interdependência entre os dois países. Em julho, Espanha e Marrocos mantiveram uma ampla operação para o deslocamento de centenas de milhares de passageiros entre os dois lados do Estreito de Gibraltar, demonstrando a necessidade de coordenação entre os governos.
Ainda assim, o tamanho da crise aumentou a pressão sobre o governo de Sánchez. A oposição espanhola passou a cobrar mudanças na legislação migratória, enquanto outros governos europeus demonstraram preocupação com a possibilidade de novos fluxos.
Para onde a crise pode levar?
O primeiro desafio é humanitário. Ceuta tem uma população pequena e uma estrutura de acolhimento limitada para absorver, de uma só vez, dezenas de milhares de pessoas. O episódio já levou ao reforço das forças de segurança e à mobilização de estruturas de emergência.
O segundo é político. A crise pode aumentar a pressão sobre o governo espanhol para endurecer o controle migratório e alterar as regras de devolução de pessoas que entram pelo mar.
O terceiro é diplomático. Caso Madrid conclua que Rabat falhou deliberadamente no controle da fronteira, a relação entre os dois países pode ser afetada. Ao mesmo tempo, uma escalada seria arriscada para os dois governos, já que a cooperação espanhola e marroquina é fundamental para conter a migração irregular.
Há ainda um quarto risco: o crescimento da pressão sobre a União Europeia. Ceuta é território espanhol e, portanto, uma fronteira externa europeia. Uma crise prolongada pode aumentar a cobrança por uma resposta conjunta do bloco.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Gabriela Martins.

