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Digitais ignoradas: preso luta para provar que foi confundido com ladrão

Digitais ignoradas: preso luta para provar que foi confundido com ladrão
Material cedido ao Metrópoles

Um homem condenado a mais de 25 anos de prisão por roubo tenta a última alternativa para provar sua inocência na Justiça. Alexsandro Cantuária de Souza (foto em destaque, à esquerda) foi preso por supostamente ter participado de um assalto à casa de um promotor em junho de 2020, em Bertioga, no litoral de São Paulo.

O processo transitou em julgado e vai passar por revisão criminal. A esperança do comerciante e da defesa dele são laudos papiloscópicos (de impressões digitais) que teriam sido omitidos em toda a ação penal desde a fase do inquérito.

Os advogados de Alexsandro obtiveram os documentos por meio de uma Ação de Justificação Criminal, homologada pela Justiça em julho de 2026, e, agora, a Justiça vai poder analisar a prova de inocência no julgamento da revisão criminal do caso.

Confundido com ladrão

Alexsandro foi acusado de participar do crime e apontado como culpado. Ele alega inocência e diz que as características físicas descritas pelas vítimas foram o que o condenou, especialmente os olhos claros.

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do Metrópoles SP

Em depoimento, as vítimas informaram que um dos assaltantes tinha olhos verdes bem acentuados e marcas de acne no rosto. Este fato teria sustentado toda a acusação contra Alexsandro.

A defesa do acusado afirmou, em recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que a autoridade policial “começou uma verdadeira ‘caça às bruxas’” após a declaração das vítimas. O reconhecimento do suspeito teria sido feito por meio do aplicativo de mensagens WhatsApp e não presencialmente. Alexsandro teria sido acusado “única e exclusivamente em razão dos olhos verdes”.

“Disseram que eram três assaltantes, e um deles possuía olhos verdes e marcas de acne no rosto. E aí a polícia simplesmente me pegou na rua”, disse Alexsandro, que foi levado a uma delegacia para tirar fotografias e ter as impressões digitais recolhidas.

Para o advogado de Alexsandro e especialistas ouvidos pela reportagem, o comerciante passou por reconhecimento irregular, o que resultou na condenação. Além disso, indícios que apontam o não envolvimento dele com o crime teriam sido ignorados durante a ação penal.

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Laudos de digitais omitidos

A perícia nas cenas do crime (a residência invadida, a casa onde os assaltantes pernoitaram e o carro de uma das vítimas) colheu 133 impressões digitais. Um laudo papiloscópico foi elaborado oito dias após o crime e concluiu que nenhuma das digitais coletadas pertencia a Alexsandro.

Por outro laudo, a perícia identificou que um dos fragmentos, encontrado na porta do veículo da vítima, pertencia a Felipe Benício Ramos (foto em destaque, à direita). Esse documento foi enviado à autoridade policial duas vezes, em 9 de novembro de 2020 e em 5 de fevereiro de 2021.

Em nota enviada ao Metrópoles, a defesa de Felipe Benício diz que ele se declara inocente.

“O verdadeiro assaltante, que é o tal de Felipe Benício Ramos, realmente é a minha cara”, destacou Alexsandro.

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A cor dos olhos sustentou a acusação contra Alexsandro Cantuária (esquerda). Segundo a defesa, Felipe Benício Ramos (direita) é o verdadeiro culpado pelo crime

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Alexsandro tem três filhas pequenas

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O comerciante trabalha em um quiosque na Praia de Enseada, no Guarujá, no litoral de São Paulo

Material cedido ao Metrópoles

O laudo, no entanto, teria sido ignorado pelo ex-delegado titular de Bertioga José Aparecido Cárdia, responsável pela apuração do caso e atualmente aposentado.

Em dezembro de 2020, Cárdia chegou a solicitar informações à perícia da Polícia Civil sobre os indícios que colocavam Felipe na cena do crime. No entanto, essas informações não foram anexadas aos autos e nem reveladas em audiência.

O ofício só foi juntado ao processo em setembro de 2022, após a condenação de Alexsandro. Os laudos papiloscópicos, por sua vez, só foram anexados neste ano e ainda devem ser analisado pela Justiça.

Outras provas de suposta inocência

Alexsandro alega que estava a ao menos 50 km de distância do local do crime entre os dias 9 e 10 de junho de 2020, quando o assalto foi cometido. A operadora de telefonia Nextel certificou oficialmente que o aparelho celular Motorola, utilizado por ele, e o aparelho Samsung, utilizado pela esposa dele, não saíram do município do Guarujá naquele período.

Os registros de antena apontam que os celulares estavam ativos no Guarujá no momento exato do assalto. Alexsandro também alegou como álibi estar presente em um churrasco de família durante aqueles dias. Para o Ministério Público de São Paulo (MPSP), no entanto, é “impossível afirmar que Alexsandro estava no Guarujá”, já que os aparelhos eram compartilhados entre ele e a esposa.

Também não ficou comprovada a ligação entre o comerciante e nenhum dos dois outros corréus identificados como participantes do assalto, e nem a qualquer elemento do crime. A perícia dos celulares de Alexsandro e da esposa não identificou qualquer contato, mensagem, ligação ou foto que apontasse elo entre as partes.

Sobre este ponto, a acusação afirma que a conexão entre o comerciante e os criminosos está amparada em “relatos seguros” do delegado de polícia e dos investigadores. A promotoria também se apoia em uma foto com dinheiro e armas, localizada no celular de Alexsandro, para sustentar a tese de associação criminosa.

O MPSP se baseia ainda em uma máquina de cartão inativa localizada na casa do comerciante para acusá-lo de associação criminosa. A acusação sustenta que o aparelho foi destruído com água em uma estratégia de ocultação de provas, mas a investigação mostrou que nenhum valor das vítimas ingressou nas contas de Alexsandro e que o aparelho estava totalmente inutilizado desde 2018, dois anos antes do crime.

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Alexsandro e as filhas

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Alexsandro e as filhas

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Alexsandro e as filhas

Imagem cedida ao Metrópoles

“Não querem assumir que erraram”

O MPSP chega ao processo de revisão criminal com uma postura de oposição à absolvição de Alexsandro. A procuradora Águeda Maria Barbosa Hajar se manifestou nos autos pelo não reconhecimento da revisão criminal e por sua total improcedência caso o Tribunal de Justiça do Estado (TJSP) reconheça o recurso.

A procuradoria sustenta que a defesa está tentando forçar uma “segunda apelação” ou “terceira instância” para reavaliar provas já analisadas e se apega ao reconhecimento feito pelas vítimas do assalto.

Para Yasmim Pitta Medeiros de Souza, esposa de Alexsandro, o órgão ministerial “não quer assumir que errou” ao manter o comerciante preso. A mulher também destaca que o destino do marido poderia ter sido diferente se os laudos de impressões digitais tivessem sido anexados aos autos desde o início da ação penal.

“Isso é muito grave, porque se esse laudo tivesse sido mostrado no começo, como era para ser, teriam tirado o nome de Alex logo no começo do caso”, disse ao Metrópoles.

Yasmim apontou, ainda, que a família tem enfrentado dificuldades, especialmente as três filhas do casal, que estão há mais de um ano distantes do pai, preso desde julho do ano passado. “A gente não pode deixar isso acontecer. Eles tem que processar quem cometeu o crime, e não um pai de família inocente”, argumentou.

A reportagem não localizou a defesa de Cárdia. O espaço segue aberto.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Milena Vogado.

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