O registro em vídeo do sequestro de um suposto traficante na zona leste paulistana, no último dia 12, descortinou a atuação de um grupo armado, com características de milícia — composto por ao menos dois policiais civis da ativa — suspeito de extorquir dinheiro de comerciantes e criminosos.
Uma das vítimas relatou com exclusividade à coluna, sob condição de anonimato (assista abaixo), como foi levada à força e obrigada a pagar dezenas de milhares de reais para ser liberada pelo agente do 78º DP (Jardins) Rafael Juergen Schult, atualmente foragido da Justiça.
Segundo fontes que acompanham a investigação, Rafael é apontado como provável líder do grupo, que atuaria ao menos nas zonas leste e oeste paulistanas, além do centro. O irmão dele, Gustav Schult, também segue foragido. Ele aparece em vídeos coagindo vítimas, armado e usando uma falsa identificação policial.
Outros supostos integrantes do bando já foram identificados e são alvo de mandados de prisão. Até o momento, foi cumprido apenas o expedido contra o carcereiro Milton Massaru Nakayama, o Japa, lotado no 65º DP (Artur Alvim).
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do Metrópoles
Abordado e colocado em carro
A vítima ouvida pela coluna trabalha com a comercialização de itens de tecnologia e chegou à capital paulista no início dos anos 2000. Ela afirmou que, desde então, já foi abordada por criminosos — alguns deles se apresentando como policiais civis — que exigiam o pagamento de mensalidades. Segundo o comerciante, a prática não muda. Mudam apenas os responsáveis por executá-la.
“Os valores são pagos para a pessoa [vítima] poder continuar a trabalhar. Caso se negue, paga de outra forma. Isso é uma máfia”, explicou.
Após alguns meses sem contribuir com o grupo que atribui aos irmãos Schult, o comerciante afirma que teve a rotina monitorada até ser encontrado neste ano.
“Fui abordado na porta [do comércio] e perguntaram meu nome. Respondi. Aí o outro disse: ‘É ele mesmo’. Me algemaram. [Rafael] mostrou a carteira [distintivo policial], colocou a mão na arma e falou: ‘Vem tranquilo aqui no carro. A gente vai conversar. Você está preso no momento’.”
A vítima então foi levada até o estacionamento do 78º DP, onde Rafael Schult trabalhava como agente de 2ª classe antes de ter a prisão decretada pela Justiça.
Enquanto Rafael, que a vítima afirma ter reconhecido sem dúvidas, desembarcou e correu até a delegacia, outro suspeito permaneceu no veículo com o comerciante. Nesse momento, o comparsa começou a fazer perguntas sobre os valores movimentados pela vítima nos negócios.
Ameaça e extorsão
Rafael, segundo o relato, voltou para o carro, que passou a circular pela região da delegacia. Com o veículo em movimento, o policial civil teria ameaçado o comerciante. Caso não pagasse uma quantia estipulada em dezenas de milhares de reais, a vítima poderia ser envolvida em um flagrante forjado e, com a perda da liberdade, acabar pagando a dívida imposta pelo grupo.
Para evitar isso, o comerciante precisou pedir parte do valor emprestada e somente após a confirmação das transferências, para contas que afirma terem sido indicadas por Rafael, foi liberado. Antes, precisou prometer que pagaria o restante.
“Isso só não aconteceu porque, depois que o caso veio à tona [com o vídeo do sequestro na zona leste], eles sumiram.”
O comerciante disse ainda que a ameaça de prisão por meio de flagrantes forjados seria uma forma de intimidar outras vítimas, coagidas a pagar depois de testemunharem as consequências da “inadimplência”.
“Eles [criminosos] agem cobrando de ‘bom grado’ e, caso não tenha pagamento, agem impondo um clima de terror. Ou paga com dinheiro, ou vai servir de exemplo”.
Milhões em prejuízo
Desde que começou a trabalhar na capital paulista, a vítima afirma ter perdido milhões de reais em extorsões atribuídas a diferentes grupos. Somente nos últimos dois anos, estima um prejuízo de R$ 500 mil, entre pagamentos e mercadorias desviadas, inclusive em episódios que atribui a prováveis policiais.
Segundo o relato, produtos apreendidos também seriam usados como parte do pagamento de mensalidades, que oscilariam entre R$ 2 mil e R$ 5 mil, dependendo do tamanho do comércio.
“Quando não recebem em dinheiro, eles [criminosos] pegam nossos produtos, legalizados, e levam para a delegacia. Aí registram uma ocorrência, apresentam 10% como se fossem ilegais e desviam os outros.”
A vítima relatou ainda que integrantes do grupo cobrariam para fazer vista grossa à comercialização de produtos ilegais, como desbloqueadores de canais de streaming, e mercadorias de contrabando, entre elas celulares.
Trailblazer preta e outros carros nas ações
Os investigadores também tentam mapear os veículos atribuídos ao grupo. Um Chevrolet Trailblazer preta, apontada como falsa viatura, aparece em uma das ações sob apuração e é relacionado ao sequestro do suposto traficante na zona leste.
Outros carros também surgem em episódios semelhantes atribuídos ao bando. A suspeita é a de que os veículos fossem usados para abordar vítimas, transportá-las e reforçar a aparência de operações policiais durante sequestros e cobranças.
A reiteração da ações envolvendo homens armados, identificação policial, veículos com aparência de viatura e ameaças de prisão, é um dos elementos analisados pela Corregedoria para verificar se os casos fazem parte de uma atuação continuada do mesmo grupo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Alfredo Henrique.

