YacoNews

Empresa de ônibus alvo de operação pode ter elo com Marcola, diz polícia

Empresa de ônibus alvo de operação pode ter elo com Marcola, diz polícia
Arte/Metrópoles

Principal líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, pode ter relação com a empresa A2 Transportes, uma das empresas mencionadas no âmbito da Operação Vectura Corrupta, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) na manhã desta quinta-feira (17/9).

Metrópoles teve acesso ao inquérito da polícia que culminou na operação. Em determinado trecho do documento, é apresentado um diálogo entre José Daniel Satilite e Claudionor Tomaz — ambos são sócios da viação Trans Líder, empresa concessionária de ônibus em Cubatão, na Baixada Santista, e alvos da operação.

No trecho, os dois conversam sobre o racha interno detectado no PCC a partir de 2024. À época, uma briga começou a ser travada nos bastidores da facção após Marcola ter dedurado Roberto Soriano, o Tiriça, outro nome de peso no PCC. A acusação teria sido feita por Abel Pacheco, conhecido como Vida Loka, criminoso com longo histórico na facção. A “caguetagem” é considerada como prática inaceitável dentro da ética do crime.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP

Frequência de envio: Diário

Ver todasVer todas as newsletters

O conflito teria começado após Vida Loka e Tiriça ouvirem a gravação de uma conversa de Marcola com o chefe de segurança do Presídio Federal de Porto Velho, em 2022, na qual o líder dá a entender que Tiriça seria o responsável pelas mortes de funcionários penais federais.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles SP

O episódio teria levado Vida Loka e Andinho (Wanderson Nilton de Paula Lima, outra liderança do PCC) a decretarem a expulsão de Marcola da facção. A ação, no entanto, não foi totalmente aceita, gerando uma divisão entre dois lados: um a favor de Tiriça, que acabou abandonando o PCC, e outro a favor de Marcola.

É a essa situação que o diálogo entre José Daniel e Claudionor se refere. Na conversa, José fala sobre “o nosso amigo lá, da Carla”, em referência a Antonio Muller, o Granada, afirmando que ele já teria se posicionado em relação a de qual lado ficaria — neste caso, o do “M maior”, o Marcola.

Em resposta, Claudionor afirma que “o pessoal daqui”, que a polícia entende ser “possivelmente da A2 Transportes”, é “M Futebol Clube“, ou seja, também estão do lado de Marcola. Ele diz, ainda, que o “pessoal da verde”, em referência a alguma outra empresa de transporte, é “T Futebol Clube”, isto é, aliados a Tiriça.

“Desta feita, fica explicito o estreito relacionamento entre membros das empresas investigadas e o crime organizado”, concluiu a polícia.

A2 é uma de 12 empresas suspeitas de ligação com PCC

Além da A2 Transportes, as investigações apontam que há pelo menos mais 11 das 22 empresas de transporte coletivo da capital sendo controladas pelo PCC.

Em reação à operação deflagrada nesta quinta-feira, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), relativizou a apuração.

“A gente já teve situações no passado onde empresas que estavam [sendo] investigadas, foram condenadas, que teve presidentes de empresas presos, e que depois a Justiça absolveu. Então, a gente não pode fazer um juízo de valor. Nós temos que ter responsabilidade. Não quer dizer, por si só, que seja a pessoa culpada”, afirmou.

Na sequência, Nunes disse que a investigação sempre vai contar com o apoio da Prefeitura de São Paulo, “mas sempre dentro do quesito da ampla defesa, da presunção de inocência”.

Ele também afirmou que vai pedir o afastamento dos gestores da empresa de ônibus A2 Transportes Paulo Korek e Júlio Salvador Filho, que também foram alvos de mandado de prisão.

O prefeito declarou, ainda, “surpresa” com a prisão de Levi dos Santos de Oliveira, seu secretário municipal de Mobilidade e Trânsito entre 2021 e 2022, além de ex-presidente da SPTrans.

Em nota, a A2 Transportes negou envolvimento com a facção, assim como quaisquer práticas criminosas.

Veja a nota na íntegra abaixo:

“A A2 Transportes, por meio de seu presidente, Paulo Siqueira Korek, reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a ética e a seriedade na condução de suas atividades.

A empresa nega de forma categórica qualquer envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC), bem como qualquer prática de lavagem de dinheiro ou participação em atividades ilícitas.

A A2 Transportes esclarece, ainda, que todos os recursos financeiros que ingressam na empresa são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços regularmente prestados. Não existem outras fontes de entrada de recursos financeiros na empresa.

Diante das informações que vêm sendo divulgadas, a empresa está à disposição das autoridades competentes para apresentar documentos e prestar todos os esclarecimentos necessários, contribuindo para que os fatos sejam devidamente apurados.

Para o presidente Paulo Siqueira Korek, o movimento que vem ocorrendo em torno da empresa apresenta, em sua percepção, forte componente político. A A2 Transportes, entretanto, reafirma que seguirá colaborando com as instituições responsáveis pela apuração e respeitando rigorosamente o devido processo legal.

“A A2 Transportes nunca teve envolvimento com o PCC e jamais fez lavagem de dinheiro. Nossos recursos são provenientes exclusivamente dos contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura pelos serviços que prestamos. Não temos outras fontes de entrada de recursos. Nossa história é construída com trabalho, seriedade e ética. Estamos à disposição para todos os esclarecimentos necessários e confiamos na apuração dos fatos e na Justiça”. Paulo Siqueira Korek — Presidente da A2 Transportes”

A A2 Transportes reforça seu compromisso com a verdade, a transparência e a legalidade, confiando que os fatos serão esclarecidos com base em documentos, provas e informações oficiais.”

Entenda a operação contra o PCC no transporte

Segundo a investigação, o suposto esquema envolvia empresas, advogados, integrantes do crime organizado e agentes públicos para alcançar os objetivos da facção.

A operação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada de Decúrio. Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes da PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.

A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na Capital e no interior”. Essa infiltração, segundo as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais.

Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo também teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.

As facilidades no setor, segundo a investigação, seriam obtidas em troca do financiamento de campanhas eleitorais de candidatos e cooptação de agentes públicos. Candidato a deputado estadual, Danilo Morgado (PL) foi preso durante a operação desta quinta-feira. Morgado é investigado por envolvimento com o núcleo político do PCC. Segundo a polícia, a campanha dele ao pleito municipal, em 2024, foi financiada pela facção criminosa.

Os investigadores ainda citam encontros periódicos com ex-gestores do sistema público, como o servidor da SPTrans Levi Oliveira, e políticos que atuariam como responsáveis ou proprietários por empresas do setor, como Milton Leite, apontado como dono da Transwolf.

O dinheiro do crime seria injetado no setor de transporte por meio da negociação de veículos e compra/venda de frotas inteiras de ônibus, com pagamentos de comissão aos laranjas, além da transferência de valores entre as contas das empresas e dos investigados.

A investigação também aponta a existência de um núcleo chamado “Sintonia dos Gravatas”, composto por advogados e operadores ligados à facção, que teriam o papel de intermediar negociações contratuais, atuar em licitações, gerenciar repasses de comissões e disponibilizar contas bancárias e escritórios para reuniões de integrantes do esquema.

“Em síntese, os elementos descritos pela Autoridade Policial procuram demonstrar que a atuação investigada extrapolaria o tráfico de drogas, abrangendo a utilização de empresas de transporte, pessoas interpostas, contratos públicos, articulações políticas e estruturas da área da saúde, além de evidenciar suposta divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos, com atuação coordenada em benefício do PCC”, diz um trecho do documento.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Victor Aguiar.

Sair da versão mobile