Erro na cabine e falha mecânica: relatório aponta causas da tragédia da Voepass
Investigação aponta que aeronave decolou com problema no para-brisa, enfrentou gelo severo e tripulação se distraiu com conversas pessoais antes da queda
Destroços do avião da companhia Voepass (Reprodução )
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) trouxe os bastidores da tragédia do voo 2283 da Voepass, que tirou a vida de 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Apresentado na última quinta-feira (23/7), o documento expõe uma sucessão letal de falhas técnicas, erros humanos e deficiências na fiscalização.
A investigação da Força Aérea Brasileira (FAB) listou 39 conclusões, revelando que a tragédia foi provocada por uma tempestade perfeita de irregularidades. Elas teriam começado desde o momento em que o avião estava no solo até os segundos finais de queda livre.
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Aeronave da VoepassAeronave da Voepass / Reprodução Destroços do avião da companhia VoepassReprodução Reprodução
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O desastre começou a ser desenhado antes mesmo de o ATR 72-500 sair de Cascavel (PR). Segundo o investigador Paulo Mendes Fróes, a aeronave apresentava dez falhas mecânicas prévias. Uma delas era no limpador de para-brisa, o que, pelas regras da aviação, proibia a decolagem caso houvesse previsão de chuva para a rota, o que de fato existia.
O Cenipa identificou na Voepass uma perigosa cultura de “normalização de desvios”. Pilotos e mecânicos frequentemente deixavam de registrar problemas técnicos nos diários de bordo para evitar que as aeronaves ficassem retidas para manutenção. A falha no sistema de degelo, que se provou fatal, era um desses problemas omitidos.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também foi duramente responsabilizada. Auditorias anteriores já haviam detectado essas práticas irregulares na companhia aérea, mas o gerenciamento de risco da agência foi classificado como insuficiente para impedir a continuidade das operações inseguras.
O caos na cabine e os últimos minutos
Durante o trajeto até Guarulhos, o avião encarou condições de gelo severo, que persistiram por cerca de dez minutos. Com o sistema de degelo da asa direita inoperante, a situação exigia atenção total. Por outro lado, o painel da aeronave emitiu oito alertas visuais e sonoros apontando perda de velocidade e degradação de performance, que foram ignorados.
O motivo? Segundo os dados obtidos pelo G1, os pilotos estavam distraídos com conversas sobre assuntos pessoais. Quando a aeronave finalmente perdeu a sustentação (o chamado estol), uma manobra incorreta selou o destino do voo. O copiloto, contrariando as orientações dos manuais de segurança, puxou o manche ao invés de empurrá-lo.
Isso agravou a perda de controle e mergulhou o avião em um “parafuso chato”, girando sobre o próprio eixo enquanto caía na vertical. A velocidade da queda atingiu aterrorizantes 14 mil pés por minuto, o equivalente a despencar quatro quilômetros em sessenta segundos, completando cinco voltas antes do impacto no solo.
Cobranças urgentes e defesa da empresa
Com o encerramento das apurações, o Cenipa emitiu recomendações severas tanto para a fabricante francesa ATR, exigindo aprimoramento nos sistemas de alerta visual, regras de voo no gelo e melhorias nas caixas-pretas, quanto para a Anac, cobrando uma fiscalização mais rígida e atualização de manuais.
Em resposta, a Voepass emitiu uma nota prestando solidariedade às famílias e defendendo seu histórico. A empresa ressaltou que atua há 30 anos no mercado nacional, possui certificações internacionais de segurança desde 2012 e destacou que a tripulação era altamente experiente e capacitada.
Já a Anac informou que levará até 120 dias para analisar detalhadamente as conclusões do relatório.
Confira a nota completa da Voepass:
“A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.
Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.
A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA.
A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.
Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário”.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Henrique Carlos.

