Para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a recente crise diplomática com a Argentina não pode ser analisada de forma isolada. Integrantes do governo avaliam que a tensão com Buenos Aires faz parte da retórica adotada pelos Estados Unidos contra o Brasil.
Nesta semana, o Brasil rebaixou as relações diplomáticas com a Argentina ao determinar que o embaixador brasileiro no país, Julio Bitelli, não tem prazo para retornar a Buenos Aires. Desta forma, a representação brasileira fica sob os cuidados de um encarregado de negócios.
A medida foi adotada após declarações de Milei. Nos últimos dias, o presidente argentino fez críticas ao Brasil e autoridades brasileiras em ao menos quatro oportunidades. Tal escalada não era observada desde a campanha eleitoral na Argentina, em 2022, quando Milei disputava com Sergio Massa, candidato de esquerda que havia recebido acenos de Lula no pleito.
É este contexto que acende um alerta no governo brasileiro sobre os interesses por trás do discurso adotado por Javier Milei nos últimos dias. A avaliação é que o argentino possa ter sido “contaminado” com a política norte-americana, sobretudo do Departamento de Estado, contra o Brasil.
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do Metrópoles
Crises diplomáticas
- A menos de dois meses para o primeiro turno das eleições no Brasil, o governo brasileiro acumula crises diplomáticas com países alinhados à gestão Donald Trump.
- Nos últimos dias, uma escalada na crise com Javier Milei, levou ao rebaixamento da relação diplomática com Buenos Aires, após novos ataques do líder argentino a Lula. A decisão marca o momento de maior tensão entre os dois países desde a posse de Milei.
- Paralelamente, o Palácio do Planalto também enfrenta um ruído com o Paraguai. Recentes declarações de Lula provocaram reação em Assunção, que convocou o embaixador brasileiro e o Senado paraguaio aprovou uma moção de repúdio às falas do brasileiro.
- Para integrantes do governo ouvidos pelo Metrópoles, os episódios têm naturezas distintas, mas refletem um ambiente regional mais sensível às disputas ideológicas e ao contexto eleitoral brasileiro.
EUA de olho nas eleições
Nos últimos meses, o Brasil entrou no radar de uma série de medidas norte-americanas, algumas consideradas descabidas e até hostis pelo governo brasileiro. Tais medidas, avaliam membros do Planalto e do Itamaraty, podem ter motivação política, com o intuito de criar certa influência no processo eleitoral em curso no Brasil.
O temor de interferência nas eleições, porém, não é nova. Essas preocupações surgiram ainda em 9 julho de 2025, quando Donald Trump enviou uma carta ao presidente Lula anunciando que o Brasil seria tarifado em 50%. No documento, o republicano citou nominalmente o julgamento em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e afirmou que o ex-mandatário era alvo de uma “caça às bruxas”.
Nos últimos meses, as evidências apontadas por integrantes do governo são ainda mais fortes. Entre elas, uma decisão da semana passada que amplia por mais um ano o “estado de emergência” contra o Brasil. Sem qualquer efeito prático imediato, a medida pode ser usada como justificativa para adotar sanções ou ações contra o Brasil.
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A decisão desta semana de alterar o visto da embaixadora do Brasil no EUA também foi interpretada como tentativa de interferência. A medida, que não extingue o papel de Maria Luiza Viotti como representante oficial do governo brasileiro no país, foi vista como uma mensagem política ao Brasil. A avaliação é que Washington criou uma brecha no passaporte de Viotti que revoga sua trânsito livre ao país, mas sem tirar seu status diplomático.
A medida foi justificada pela demora em aceitar o embaixador norte-americano indicado ao Brasil e após o governo brasileiro negar o pedido de visto para duas autoridades norte-americanas fazerem visitas ao Brasil. A visita, conforme informou integrantes do governo, tinha como objetivo uma tentativa de interferência no processo eleitoral do Brasil, por isso os pedidos foram negados.
Na leitura do Planalto, tais iniciativas reforçariam interesses de natureza ideológica na condução da política externa norte-americanas – o Executivo analisa que a eleição brasileira deste ano será um teste central para que Trump meça a eficácia de sua estratégia de influência na América Latina.
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Trump e Javier Milei
Kevin Dietsch/Getty Images2 de 3
O presidente argentino Javier Milei participa da convenção nacional do Partido Liberal (PL) na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo, Brasil, em 25 de julho de 2026.
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O presidente argentino Javier Milei e Flávio Bolsonaro na convenção nacional do Partido Liberal (PL)
Allison Sales/NurPhoto via Getty Images
Crises diplomáticas
As investidas norte-americanas convergem ainda com recentes crises diplomáticas que Lula enfrentou com governos alinhados a Donald Trump. Embora Lula tenha enfrentado um ruído com Paraguai de Santiago Peña, que também é um líder de direita que simpatiza com gestão trumpista, a crise com a Argentina foi o que criou um alerta.
Embora não acreditem que possa existir uma coordenação formal ou uma articulação entre a Casa Rosada e a Casa Branca, membros do governo brasileiro avaliam que Javier Milei pode ter sido contaminado com a retórica norte-americana e tem buscado investir em críticas ao Brasil – seja em busca de estreitar laços com o Washington ou de olho na processo eleitoral argentino do ano que vem.
Milei tem patinado em pesquisas de opinião que avaliam o desempenho do seu governo e a sua condução à frente da Argentina. Neste cenário, a percepção é que pode ser mais favorável para ele ser reeleito em um cenário que a maior potência da América do Sul esteja sendo liderada por um presidente de direita e próximo dele próprio, como é o caso de Flávio Bolsonaro (PL).
O presidente argentino esteve no Brasil na última semana para participar da convenção nacional do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Foi em discurso no evento que Milei fez ataques ao Lula e chamou Jair Bolsonaro de “amigo”.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Carinne Souza.

