Talvez uma das maiores marcas deixadas pelo bolsonarismo não esteja apenas nas eleições, mas naquilo que parte da sociedade brasileira passou a considerar normal.
Ataques às instituições, desconfiança constante sobre o sistema eleitoral, hostilidade à imprensa e a transformação de adversários políticos em inimigos passaram a ser tratados, muitas vezes, como simples demonstrações de coragem ou de “enfrentamento ao sistema”.
É justamente aí que mora o perigo.
O fascismo e outros movimentos autoritários não precisam começar com tanques nas ruas ou com o anúncio do fim das eleições. A erosão democrática também pode acontecer gradualmente, quando a população começa a aceitar comportamentos que antes seriam considerados incompatíveis com uma democracia.
O 8 de janeiro de 2023 mostrou até onde a radicalização política pode chegar. Pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes após um longo período de contestação das urnas e das instituições. Posteriormente, o STF condenou Jair Bolsonaro e outros réus no processo sobre a tentativa de golpe de Estado.
E o fenômeno não desapareceu com Bolsonaro. Políticos como Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e outras lideranças disputam hoje parte desse eleitorado e mantêm elementos da comunicação política que marcou o movimento: guerra cultural, confronto permanente e forte mobilização pelas redes sociais.
Enquanto isso, questões que interferem diretamente na vida da população — salário, jornada de trabalho, escala 6×1, saúde, educação, emprego e direitos trabalhistas — frequentemente perdem espaço para batalhas ideológicas.
Isso não significa que todo eleitor de direita seja fascista ou autoritário. Conservadorismo e liberalismo são posições legítimas dentro de uma democracia. O problema começa quando a fidelidade a um político se torna tão forte que ataques às regras democráticas passam a ser relativizados simplesmente porque partiram do “nosso lado”.
Democracia exige algo básico: nenhum político pode estar acima da crítica, das instituições ou da lei.
Talvez o maior perigo do autoritarismo seja justamente este: quando nos acostumamos com seus sinais, deixamos de reconhecê-los como perigosos.

