Um estudo sobre o comportamento de modelos de inteligência artificial nas Eleições 2026 apontou que a inteligência artificial direciona voto ao traçar perfil do eleitor em parte das respostas analisadas. Segundo o levantamento citado pela CNN Brasil, sistemas testados passaram a fornecer recomendações políticas com maior frequência quando recebiam informações sobre preferências e características políticas dos usuários.
O resultado ganha importância porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para o uso de IA durante o processo eleitoral. A Resolução nº 23.755/2026 proíbe provedores de sistemas de inteligência artificial de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, partidos, federações ou coligações, inclusive quando solicitado pelo usuário.
Estudo analisou 10 modelos de inteligência artificial
De acordo com o levantamento apresentado na reportagem, os pesquisadores testaram 10 modelos de inteligência artificial e realizaram diferentes consultas para verificar como as respostas mudavam conforme aumentavam as informações fornecidas sobre o eleitor.
A pesquisa utilizou perguntas formuladas em português a partir da perspectiva de um morador do estado de São Paulo e construiu nove perfis simulados de eleitores.
Os perfis representavam diferentes características políticas e sociais, incluindo pessoas identificadas pelos pesquisadores como de esquerda, liberais, empresários e cristãos conservadores.
Segundo os dados divulgados, foram realizadas 100 mil perguntas aos sistemas a partir de 15 de agosto, data utilizada no estudo como referência por marcar o prazo para registro das candidaturas.
Recomendações aumentaram quando havia informações políticas
Um dos principais resultados apontados pelo estudo foi a diferença entre as respostas dadas quando os modelos tinham poucas informações sobre o eleitor e aquelas apresentadas depois que recebiam dados sobre suas preferências.
Segundo os pesquisadores, quando não havia informações políticas suficientes, os modelos geralmente recusavam pedidos para indicar um candidato.
A situação mudou quando os prompts passaram a incluir características relacionadas às posições políticas do eleitor.
O estudo identificou que até informações mais genéricas, como defesa da democracia, segurança pública ou valores cristãos, poderiam alterar o comportamento dos sistemas testados.
IA também pode influenciar ao omitir candidatos
Outro ponto destacado pelos pesquisadores foi que a influência não ocorreria somente quando um sistema apresenta explicitamente um candidato como opção.
Segundo o levantamento, alguns modelos não apresentavam a lista completa de candidatos disponíveis para determinado cargo e concentravam as respostas em um número menor de nomes.
Os pesquisadores diferenciaram a indicação de um único candidato de uma categoria mais ampla, denominada no estudo como “direção personalizada”, que inclui listas de candidatos, recomendações de partidos e orientações para que o eleitor se afaste de determinada alternativa.
Essa distinção é relevante porque uma resposta pode direcionar a atenção do usuário mesmo sem utilizar uma frase explícita como “vote em determinado candidato”.
Lula e Flávio Bolsonaro apareceram em perfis diferentes
O estudo também analisou a frequência com que determinados candidatos presidenciais apareciam nas respostas conforme o perfil político atribuído ao eleitor.
Segundo os resultados divulgados pela CNN Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia com maior frequência em listas associadas aos perfis de esquerda, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) surgia mais em recomendações relacionadas a perfis de direita.
Romeu Zema (Novo) também aparecia em determinados cenários, especialmente quando os prompts valorizavam temas como empreendedorismo, privatização e redução do tamanho do Estado, conforme interpretação apresentada pelos pesquisadores.
Já Ronaldo Caiado (PSD) teria sido citado com menor frequência nos testes, enquanto outros candidatos mencionados na reportagem, como Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), não apareceram no levantamento.
Os próprios pesquisadores ressaltaram que os modelos raramente apresentaram o conjunto completo de candidatos.
O que determina a regra do TSE para IA?
O TSE aprovou em março as regras que regulamentam o uso de inteligência artificial nas Eleições 2026. Entre elas está a proibição para que provedores de sistemas de IA ofereçam recomendações de candidaturas, ainda que o próprio usuário solicite esse tipo de orientação.
A norma também estabelece regras para conteúdos sintéticos produzidos ou modificados por inteligência artificial durante a campanha eleitoral.
A Resolução nº 23.755 determina, entre outras medidas, que conteúdos sintéticos multimídia gerados ou alterados por IA sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível quando utilizados na propaganda eleitoral.
O TSE também estabeleceu restrições temporais específicas para novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas.
Pesquisa ocorre em meio à preparação para as Eleições 2026
O debate sobre IA ocorre em um cenário de crescente utilização de ferramentas generativas pelos brasileiros e de preocupação das autoridades eleitorais com possíveis formas de interferência algorítmica.
Em setembro, o TSE divulgou planos de conformidade apresentados por empresas de tecnologia para as eleições deste ano. No caso da OpenAI, o documento apresentado à Corte descreve mecanismos destinados a evitar favorecimento de candidaturas e recomendações de voto, além de medidas de monitoramento de possíveis abusos relacionados ao processo eleitoral.
O TSE também informou que plataformas devem adotar medidas específicas relacionadas à recomendação de candidatos e à integridade do ambiente digital durante o período eleitoral.
O que o estudo mostra sobre o uso político da IA
Os resultados apresentados pelos pesquisadores colocam em discussão uma questão diferente da simples recomendação direta de voto: a forma como uma inteligência artificial seleciona e apresenta informações políticas ao usuário.
Quando uma ferramenta apresenta apenas parte das candidaturas, destaca determinados nomes ou adapta a resposta ao perfil político fornecido no prompt, o conjunto de informações recebido pelo eleitor pode ser diferente daquele obtido por outro usuário.
A pesquisa, portanto, examina não apenas respostas explicitamente eleitorais, mas também como a personalização das respostas pode alterar a exposição do usuário a diferentes alternativas.
Os pesquisadores destacam que esse comportamento merece atenção diante das regras brasileiras que buscam impedir que sistemas de IA favoreçam ou desfavoreçam candidaturas durante o processo eleitoral.
