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Líder negro: quem foi João Cândido, pivô de indenização de R$ 300 mil

Líder negro: quem foi João Cândido, pivô de indenização de R$ 300 mil
Reprodução Arquivo Público

A história da Revolta da Chibata, rebelião militar de marinheiros ocorrida em 1910, na Baía de Guanabara (RJ), voltou a ser alvo de interesse após a Justiça Federal ter condenado a União a pagar R$ 300 mil de indenização, nessa terça-feira (21/7), ao filho de João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”, líder da intentona.

A indenização a Adalberto Cândido (conhecido como Candinho), de 87 anos, é resultado da reação a manifestações oficiais da Marinha consideradas ofensivas à memória do líder da Revolta da Chibata. A decisão é da 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro.

Em 2024, a Marinha enviou documento oficial à Câmara dos Deputados em que classificava a revolta como “deplorável página da história nacional”. A Justiça considerou que as palavras extrapolaram o direito à manifestação institucional e causaram dano moral ao filho de João Cândido.

E quem foi João Cândido?

Em 1910, João Cândido liderou mais de dois mil marujos na tomada de quatro navios de guerra e ameaçou bombardear a capital federal na época, o Rio de Janeiro, em protesto aos castigos corporais (chibatadas), à má alimentação e aos baixos salários aos quais eram submetidos.

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do Metrópoles

“Mesmo após o fim da escravidão como um todo no Brasil, havia na Marinha uma questão destacada por vários historiadores sobre certa elitização que ainda se mantinha nesta força militar do início do Brasil Republicano”, analisa o jornalista e professor de história Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, em artigo publicado pela Fundação Palmares.

“Prisão a ferro na solitária, de um a cinco dias, a pão e água, era a punição para as faltas leves e até vinte e cinco chibatadas, no mínimo, para as graves”, afirmou o especialista.

O Almirante Negro

Conhecido como “Almirante Negro” (título dado por João do Rio, do jornal Gazeta de Notícias), João Cândido era filho dos ex-escravos João Felisberto e Inácia Cândido Felisberto. Ele nasceu na fazenda Coxilha Bonita, no vilarejo Dom Feliciano, na cidade de Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, em 24 de junho de 1880.

Sem estudos, aos 14 anos de idade ingressou como grumete na Marinha de Guerra do Brasil. Ele se tornou muito admirado pelos companheiros marinheiros, que o indicaram por duas vezes para representar o “Deus Netuno” na travessia sobre a linha do equador. Foi muito elogiado pelos oficiais, por seu bom comportamento e habilidades como timoneiro.

Era o marinheiro mais experiente na frota, tendo navegado por três continentes, e com conhecimento sobre praticamente todo o equipamento a bordo de uma embarcação.

Participou da missão, em 1903, em que o Brasil disputou com a Bolívia o território do Acre. Nessa época, contraiu tuberculose e chegou a ficar internado por três meses no Rio.

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Recuperado e devido ao seu histórico e com a aquisição de novas embarcações de guerra da Inglaterra pelo governo brasileiro, ele e alguns outros marinheiros foram enviados, em 1909, para New Castle, no Reino Unido, para aprender o manuseio dos novos navios.

Lá, Cândido viu que não havia castigos corporais e ainda ficou sabendo sobre um motim ocorrido na Rússia (no episódio do Encouraçado Potemkin), onde os marinheiros se revoltaram contra os maus-tratos. 

“Nós que vínhamos da Europa, em contato com outras marinhas, não podíamos admitir que na Marinha Brasileira ainda o homem tirasse a camisa para ser chibateado por outro homem”, afirmou o próprio herói de guerra em depoimento no Museu da Imagem e do Som, em 1968.

De volta ao Brasil, João Cândido teria feito várias tentativas pacíficas para acabar com as torturas, incluindo uma audiência no gabinete do presidente da República, Nilo Peçanha, mas sem nenhum resultado. O que fez com que os marinheiros decidissem realizar uma revolta em 25 de novembro de 1910.

Porém, antes da data, o marinheiro negro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas ininterruptas, mesmo após ele ter desmaiado, na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais. Isso fez com que a revolução fosse antecipada para o dia 22.

A Revolta da Chibata

Navio com canhões apontados para a Baía de Guanabara, no Rio

Sob a liderança de João Cândido, 2.379 marinheiros (a maioria negros) assumiram o comando de quatro navios de guerra (Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro), que estavam na Baía de Guanabara. 

Cerca de 80 canhões foram apontados em direção ao Rio de Janeiro, sob ameaça de bombardeio, caso o governo não concordasse em melhorar as condições de trabalho da classe. Um tiro de canhão, de advertência, chegou a ser disparado e atingiu um cortiço, matando duas crianças. 

Depois, uma carta foi enviada ao presidente Hermes da Fonseca e um enviado do governo, o deputado José Carlos de Carvalho, negociou a anistia dos revoltosos e o fim da chibata.

João Cândido, “Almirante Negro”, lendo carta com as reivindicações dos marinheiros

O presidente, porém, traiu o acordo. Do total de marinheiros envolvidos na revolta, 1.216 foram expulsos da Marinha, 600 foram presos e 105 foram obrigados a trabalho forçado na Amazônia (destes, 14 foram fuzilados a caminho do Norte e jogados ao mar).

João Cândido acabou sendo preso na ilha das Cobras. Lá, numa solitária que cabia apenas seis prisioneiros, ele dividiu o espaço com mais 17, sob forte calor, sem água ou comida. Após três dias, só João Cândido e João Avelino Lira sobreviveram.

Sob acusação de insanidade, em abril de 1911, ele foi internado por dois meses no Hospital Nacional de Alienados, mas o diretor da instituição afirmou que o marinheiro não era louco. Cãndido, então, voltou à prisão, onde permaneceu por cerca de um ano e meio, e sofreu uma tentativa de assassinato.

Liberdade

No dia 29 de novembro de 1912, foi levado a julgamento e absolvido após uma defesa emocionante do advogado Evaristo de Moraes. Apesar de ser considerado inocente, foi expulso da Marinha. 

João Cândido, “Almirante Negro”, vendendo peixes após sair da prisão

Livre, para sobreviver, João Cãndido fez “bicos” e passou a vender peixes. Em março de 1953, quando soube que o Minas Gerais seria vendido como sucata para a Itália, subiu em seu caiaque, o Três Marias, para dar um beijo no casco do navio.

João Cândido se casou três vezes e teve 11 filhos. O herói de guerra brasileiro faleceu, aos 89 anos, no município de São João do Meriti, no Rio de Janeiro, no dia 6 de dezembro de 1969, local sem asfalto, luz elétrica ou água encanada.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Lorena Pacheco.

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