No campo das relações internacionais, a semana do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou marcada por crises diplomáticas com dois países vizinhos, atualmente alinhados aos Estados Unidos de Donald Trump.
A mais recente delas terá desdobramentos nesta sexta-feira (31/7), quando o governo do Paraguai deve apresentar uma nota oficial ao embaixador do Brasil no país, José Antônio Marcondes de Carvalho, com críticas sobre as recentes declarações do presidente brasileiro.
O que está acontecendo?
- O Brasil enfrenta episódios de desgaste diplomáticos com dois países vizinhos: Argentina e Paraguai.
- As duas nações latino-americanas são governadas por presidentes que se alinharam às políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, para a região.
- Os dois países integram, por exemplo, o chamado Escudo das Américas, coalizão composta, majoritariamente, por nações que apoiam Trump.
- A iniciativa, lançada pelo governo norte-americano, visa combater o tráfico e o crime organizado na América Latina. O Brasil não foi convidado para o grupo.
- A crise diplomática com Argentina e Paraguai acontece enquanto o Brasil lida, também, com uma ofensiva dos EUA.
- O governo Trump aplicou novas tarifas contra produtos brasileiros e estendeu a classificação de estado de emergência nacional contra o Brasil por mais um ano.
- O temor do governo Lula é de que Trump tente interferir nas eleições presidenciais de outubro.
O diplomata brasileiro no Paraguai foi convocado pela chancelaria do país, o que é visto na diplomacia como um sinal de forte insatisfação de um país em relação a outro, após falas do presidente do Brasil sobre a Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança.
Lula usou o conflito do século 19 como exemplo ao citar a necessidade de o país investir na área de defesa, tendo em vista que o Brasil, apesar do histórico recente pacífico e de neutralidade em guerras, foi invadido pelo Paraguai em 1864.
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
“Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, um dia, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos”, disse o líder brasileiro na ocasião em um evento realizado no último fim de semana em São Paulo.
4 imagens1 de 4
Presidente Lula e presidente do Paraguai, Santiago Peña
Ricardo Stuckert / PR2 de 4
G20 tem Lula de cara fechada com Milei e sorrindo com outros líderes
Ricardo Stuckert3 de 4
Lula e Milei
Reprodução/YouTube4 de 4VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
Reação do governo do Paraguai
A fala de Lula não foi bem recebida pelo governo paraguaio, que acusou o presidente do Brasil de distorcer fatos ao relembrar o conflito.
Na visão do Paraguai, a guerra não começou simplesmente com a ofensiva contra o Brasil. Para os paraguaios, a operação foi, na verdade, uma resposta à interferência brasileira no Uruguai, que terminou com a queda do então presidente Atanasio Cruz Aguirre, na época aliado do governo paraguaio.
“A Guerra do Paraguai é vista dentro do país como uma guerra causada pelo imperialismo britânico, com o apoio e participação ativa de Brasil e Argentina contra o Paraguai”, explica o professor de história da Faculdade Mackenzie e especialista em América Latina, Victor Missiato.
Além da convocação do embaixador José Marcondes de Carvalho, a declaração de Lula também gerou repercussões no Congresso do Paraguai. Em declaração aprovada por unanimidade, o Parlamento do país acusou o presidente brasileiro de minimizar o “profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio”.
Argentina
Ao mesmo tempo em que lida com o Paraguai, o Brasil também enfrenta um momento de tensão nas relações com a Argentina.
A crise com Buenos Aires surgiu após o presidente argentino, Javier Milei, atacar Lula durante a convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.
No evento, Milei não só demonstrou apoio à candidatura do senador, como também fez duras críticas contra o petista, classificando-o como um “presidiário” que leva o Brasil ao “caminho da dívida”.
Da mesma maneira que o Paraguai reagiu após as falas de Lula, o Brasil convocou o embaixador da Argentina em Brasília para esclarecer as declarações de Milei.
Júlio Bitelli, atual embaixador brasileiro na Argentina, também foi retirado do posto de forma temporária como um gesto de insatisfação do Brasil em relação ao episódio.
Ao ser convocado de volta ao Brasil, o diplomata manteve reuniões com Lula e com o chanceler Mauro Vieira, que serviram para analisar o ocorrido e o futuro das relações bilaterais.
O retorno de Bitelli para a Embaixada, afirmam fontes do Itamaraty, depende de como o caso se desdobrará nos próximos dias.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Junio Silva.

