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Milei e onda azul na América do Sul desafiam liderança regional de Lula

Lula volta a dizer que não aceita ingerência em meio a tensão com Trump
Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se aproxima do fim deste terceiro mandato distante de uma das prioridades do seu governo: a integração sul-americana.

Embora tenha priorizado a retomada do protagonismo regional, a estratégia esbarrou em divergências ideológicas, crises diplomáticas e mudanças no cenário político do continente, o que dificultou também seu papel de liderança na região — apesar da manutenção das relações institucionais com países governados pela direta.

A busca pela integração regional acompanhou Lula ao longo de seus governos e neste mandato não foi diferente. Logo nos primeiros meses do governo Lula 3, o petista reuniu os chefes de Estado da América do Sul em Brasília com o objetivo de retomar o diálogo político e fortalecer os mecanismos de cooperação regional, abandonado nos anos anteriores.

O encontro resultou no chamado Consenso de Brasília, que reafirmou o compromisso dos países sul-americanos de intensificar o diálogo pela construção de uma agenda comum em áreas estratégicas para a região.

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do Metrópoles

A iniciativa chancelou a tentativa de Lula de recolocar a integração sul-americana no centro da política regional, resgatando o protagonismo do Brasil – e o seu próprio – na articulação entre os países do continente.

Esses objetivos, contudo, esbarram com uma mudança política na região que foi alavancada por Javier Milei, presidente eleito na Argentina em 2023. Desde então, os dois países não apenas antagonizam politicamente, como disputam o protagonismo pela liderança regional.

Para Artur Ratc, doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, a crise diplomática entre Brasil e Argentina, provocada por trocas de farpas entre Lula e Milei, são reflexos de como funciona a geopolítica.

“Governos de direito e de esquerda são, basicamente, do jogo político”, explica Ratc. “O que se sobrepõe a isso é como se comportam os governantes e, por consequência, as relações institucionais”.

Integração regional América do Sul

Onda azul prejudicou planos de Lula na América do Sul

Atualmente, sete dos doze países da América do Sul são comandados por líderes ligados a direita, centro-direito ou extrema-direita.

De um lado, Argentina, Bolívia, Chila, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru encontram-se sob o domínio de governos a direita. Já o grupo de países controlados pela esquerda é composto por Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname.

O tabuleiro político na região mudou nos últimos meses, após as vitórias de Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella.

Herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, Keiko derrotou o candidato da esquerda nas eleições do Peru, Roberto Sánchez, em um pleito marcado pela longa apuração de votos.

Enquanto isso, Espriella se sagrou o vencedor das eleições presidenciais na Colômbia, onde derrotou o senador de esquerda Iván Cepeda.

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Milei dificultou avanço de Lula por liderança regional

Embora a disposição dos países em retomar uma aliança regional tenha gerado entusiasmo após a Cúpula da América do Sul organizada por Lula e ocorrida em Brasília, o objetivo não se concretizou e encontrou percalços no caminho com a mudança de governo um importante aliado regional: a Argentina.

A ascendência de Javier Milei deu início à chamada Onda Azul na América do Sul e colocou em xeque a busca por uma cooperação entre os países sul-americanos como forma de ampliar a capacidade da região de enfrentar desafios comuns e responder de maneira coordenada a crises internacionais.

À frente da segunda maior economia da América do Sul e do principal parceiro regional do Brasil, Milei adotou uma política externa marcada por críticas aos blocos de integração regional e pela aproximação com governos e lideranças conservadoras, especialmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A objeção do libertário argentino coloca especial dificuldade no projeto de integração regional proposto por Lula – para especialistas, um projeto que não conte com o apoio das duas maiores economias do continente é insustentável. Além disso, em um cenário político regional em que a maioria dos líderes antagonizam com Lula, deixam essa possibilidade ainda menos palpável.

Milei e Lula, agora, protagonizam uma grave crise diplomática na relação entre os dois países, em uma demonstração de que a atual relação entre Brasília e Buenos Aires reflete não apenas divergências bilaterais, mas também projetos distintos para a inserção internacional da região.

Tal crise expõe ainda uma fragilidade política da região, que tem dificuldade em obter consenso e se mostra mais vulnerável a crises internacionais.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Carinne Souza.

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