O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), apresentou à Câmara Municipal um projeto de lei para aumentar em até 57% os salários dos auditores de finanças, que passarão a ter um piso de R$ 21,5 mil, além de uma gratificação que subiria de R$ 700 a R$ 2 mil, concedida mensalmente a todos os servidores lotados na Controladoria Geral do Município (CGM).
A entidade, responsável por fiscalizar os gastos públicos municipais, combater a corrupção, defender o patrimônio do município e promover a transparência na administração, praticamente deixou de produzir relatórios desde que o advogado Daniel Falcão assumiu como controlador, em 2022. Ele foi quem articulou o aumento e a bonificação para sua equipe.
O aumento tem sido questionado por uma categoria equivalente, a de Analista em Políticas Públicas, que vê aumentar para até R$ 15 mil por mês, mais bônus, a diferença salarial entre elas. As carreiras de Auditor Municipal de Controle Interno (AMCI) e Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental (APPGG) foram criadas pela gestão Fernando Haddad (PT), em 2015, inspiradas nas carreiras equivalentes no âmbito federal, onde o salário é idêntico.
Em São Paulo, os primeiros servidores contratados chegaram ao serviço público pelo mesmo concurso, com uma diferença salarial de R$ 3,7 mil, que cai à medida que os servidores sobem de nível. A proposta de Nunes reverte essa lógica: os novos servidores da controladoria chegariam à prefeitura já ganhando salário maior do que os analistas que têm 10 anos de carreira, sem considerar o bônus mensal de R$ 2 mil exclusivo a quem trabalha na CGM.
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do Metrópoles
Dos 15 níveis da categoria, dois (os mais baixos) teriam aumento de até 30% – os demais, acima. Para cinco a correção seria de mais de 50%, chegando a 57% nos quatro níveis mais altos. A prefeitura diz que a atualização é de “aproximadamente 25%”.
Na justificativa do projeto de lei, Nunes detalhou que “as medidas propostas valorizam e fortalecem os quadros técnicos responsáveis pelo controle interno para mitigar a evasão profissional“. “A iniciativa busca, portanto, contribuir para o fortalecimento de uma Administração Pública mais íntegra e preparada para responder, com maior capacidade institucional, aos desafios de gestão presentes e futuros da cidade de São Paulo“, ele justificou.
A proposta de um aumento expressivo no salário dos auditores vem em momento em que a CGM é criticada por sua baixa produtividade na fiscalização da gestão municipal. Até a coluna questionar a prefeitura sobre a ausência de produção de auditorias nos últimos anos, o site da controladoria não citava nenhum relatório produzido em 2026, um em 2025 e dois em 2024. Às 16h56 desta quinta-feira (3/9) foram publicados, como sendo de 2026, sete documentos, o mais recente de 2024.
Em 2019, como comparação, foram 30 relatórios de auditoria e 15 notas técnicas publicadas. Eventuais outros documentos produzidos nesses últimos dois anos não foram publicados. O site da CGM diz que “não houve auditoria interna na Controladoria Geral do Município no ano vigente”.
O relatório de 2025 da CGM diz que, para aquele anos, estavam previstos 21 trabalhos entre auditorias e consultorias, mas parte delas foi cancelada ou suspensa. No fim do anos, apenas 14 “avaliações” haviam sido realizadas, além de sete trabalhos de apuração, cinco deles concluídos. Em 2019 foram 123 Auditorias ou ordens de serviço concluídas, segundo relatório daquele ano.
Procurada pela coluna, a prefeitura enviou a nota abaixo:
“A Prefeitura de São Paulo informa que os percentuais mencionados pela reportagem não correspondem ao reajuste previsto no Projeto de Lei. A proposta prevê atualização de aproximadamente 25% no subsídio da carreira de Auditor Municipal de Controle Interno (AMCI). A Gratificação Especial pela Prestação de Serviços de Controladoria (GEP) já existe, é vinculada ao exercício na CGM e não é exclusiva dos auditores. Com as duas alterações, o reajuste pode chegar a 32% para os auditores lotados na Controladoria, índice que considera a dimensão e a complexidade da Administração Pública de São Paulo, além de restabelecer a competitividade remuneratória da carreira e enfrentar a evasão de profissionais.
Embora instituídas pela mesma lei, as carreiras de auditor e analista de políticas públicas e gestão governamental são distintas, com atribuições, estruturas e tabelas remuneratórias próprias. A atuação dos auditores não se restringe às auditorias, cabendo a esses profissionais também correição, integridade e gestão de riscos, proteção de dados pessoais, ouvidoria, defesa do usuário dos serviços públicos, produção de informações, planejamento e gestão.
Quanto ao número de auditorias, a variação observada nos últimos anos deve ser considerada no contexto da mudança metodológica da Auditoria Geral, que passou a adotar planejamento baseado em riscos e critérios de priorização, além do monitoramento das recomendações. A CGM alcançou o Nível 2 do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna (IA-CM), desenvolvido pelo Institute of Internal Auditors (IIA), cuja implementação no setor público brasileiro conta com apoio do Banco Mundial.”
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Demétrio Vecchioli.

