Todos os que já foram mordidos pela síndrome do vira-lata vão achar um exagero. Mas as eleições brasileiras de outubro vão ser examinadas com lupa por todo o mundo. Os resultados dirão se o país impõe – ou não – um freio ao avanço da extrema direita global.
Desde que o Brasil voltou a eleger diretamente seus presidentes, em 1989, os nomes dos eleitos apareciam discretamente nas editorias internacionais dos principais jornais do mundo.
O revezamento entre centro-direita e centro-esquerda no poder soava como sinal de amadurecimento da democracia.
A partir de 2018, porém, esse ciclo moderado se fechou. O capitão Jair Bolsonaro se orgulha de ter içado a “direita ideológica” ao topo da agenda política. À pancadaria verbal do ex-presidente seguiu-se a pancadaria real em 8 de janeiro de 2023.
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do Metrópoles
As cenas de vandalismo em Brasília chamaram a atenção do mundo a este país tropical que há muito tempo já não era associado à violência política. Poucas vezes na história uma multidão enfurecida com a derrota de seu líder terá destruído até obras de arte nos palácios.
Pois os vândalos foram julgados – alguns com certo exagero nas penas – e o antigo presidente se encontra em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Os quase quatro anos que se seguiram tiveram a aparência de volta à normalidade. Mas o quadro mudou.
Em meio a uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal, a sociedade vive o desconforto de uma campanha eleitoral vazia de ideias e plena de acusações.
Procura um caminho alternativo, mas esbarra na mesma disputa entre a centro-esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a direita radical do herdeiro Flávio Bolsonaro.
A cada semana as pesquisas oscilam entre um e outro como possível vencedor do mais que provável segundo turno. Até o fim de outubro muita água vai rolar, muitas outras denúncias vão aparecer e muitas dúvidas vão dominar o cenário político.
Mas é preciso deixar claro: aqui não se trata mais, como no passado recente, de uma disputa civilizada entre o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o ex-operário Lula. O atual presidente recorda até com carinho esses bons velhos tempos.
O enredo agora é bem mais violento. Passa por sérias denúncias de ligações de Flávio Bolsonaro com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, mas vai além. Inclui novas ameaças à própria manutenção do regime democrático.
Segundo o atual candidato da direita à Presidência da República, seu pai Jair “nunca foi uma ameaça à democracia”. Muito pelo contrário, alegou, “Bolsonaro era e continua sendo o último obstáculo para que este país não degringole de uma vez por todas em uma ditadura”.
A defesa enfática do pai não resiste a uma simples busca na internet. Basta procurar, por exemplo, todos os discursos feitos pelo então deputado Jair em defesa de ditadores como Augusto Pinochet, responsável por uma carnificina no Chile.
Isento dos afetos do filho candidato, o resto do mundo acompanha as eleições brasileiras pelo que elas representam em um cenário complexo e desafiador.
A possível vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o Brasil na órbita direta dos Estados Unidos de Donald Trump, cujo governo não esconde suas preferências e se orgulha de haver apoiado candidatos vitoriosos de direita em países como a Colômbia e o Equador. Além do aliado de primeira hora Javier Milei, na Argentina.
E a direita de Trump não é uma direita qualquer. Ela deixa na memória republicanos moderados, que, pelo menos, procuravam manter uma relação civilizada com aliados na Europa e na América Latina. Ali também o jogo é bruto.
Uma possível vitória de Lula não mudaria muita coisa nas relações internacionais do Brasil. Permaneceria de pé uma tradição da política externa de estímulo ao multilateralismo e à busca de um papel mais importante para o chamado Sul Global.
Além disso, como começam a observar comentaristas de jornais de vários países, a permanência de Lula no poder por mais quatro anos seria uma espécie de contrapeso à crescente influência global da direita radical.
As eleições brasileiras não vão mudar o mundo. Mas ajudarão a indicar se existem alternativas disponíveis em tempos tão turbulentos.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Blog do Noblat.

